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Aventuras no parque e outras est\u00f3rias (SUFUS HUFUS)

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AVENTURAS NO PARQUE
















































































- Pois era meu Pai, está a ver que acertou\u2026

- Não acredito\u2026

- Voltou maluco dessa guerra, dizem que tem stress
pós traumático... e segundo consta, passou me a doença\u2026

- Desculpe, o senhor não me diga\u2026

- Já disse\u2026 Não quer acreditar\u2026

- Eu não nasci ontem\u2026

- Pois parece-me que nasceu, e não me chateie mais
com isso dos batalhões e cagalhões, não quero ouvir falar mais nadinha dessa
guerra nem de quem a cagou está bem?!



















Fui-me embora. Abalei. Estou agora no parque
verde da cidade fumando uma ganza, enquanto penso e penso de novo, ou pensamos,
porque finjo que tenho um amigo imaginário, e meu amigo imaginário é você, que
me lê agora, então multiplico meu monólogo com você enquanto inspiro a fumaça e
passo o charuto e tu não sabe travar, tu atira toda a fumaça na minha cara e
diz armado em saloio "Uma vez drogado, drogado para a vida". Sim senhor, eu concordo.
E se você é deus, eu sou o diabo, e se você prefere ser o diabo, eu sou deus,
foda-se a chibaria, quanto mais você se alonga no léxico, mais você suja a
casaca por isso, é melhor se jogar fora da enseada logo, apenas para mostrar a
fome que corre em seus ventrículos. Vamos acabar com as cenas ridículas
"feche seus olhos, meu irmão, e você verá que o pânico se transformando em
menta, você sabe que somos matéria, o umbigo salva, o ventrículo é uma bomba
atómica, estamos condenado a dar e receber e o amor pela ilusão é assim mesmo,
um diálogo inventado, um monólogo dirigível, um laranjal ao ar livre onde se
passeiam surdos e mudos\u2026\u201d

CONVERSA DE AREIA

E noite. Muitas vezes é noite
por aqui e eu vou sozinho. Aqui vou eu, caminhando por esta estrada de asfalto
gretado morro acima, sem parar. Sim, é tudo sobre mim agora. Não sobre você.
Faz dias talvez anos que deixei a área industrial, mas acho que ainda podemos
avistar um ou outro pavilhão em ruínas se olharmos para trás através da
escuridão. Mas não devemos, não devemos olhar para trás, há que manter a
marcha... E, digamos, essas pedrinhas rolando sob meus pés e pulando para os
lados, elas dão um sentido, uma ordem, um significado, elas se comunicam, elas
nos trazem o futuro... a existência e todo o que fica no meio... Lá longe,
vindo de um dos lados da estrada, para além das cortinas de fumaça, para além
das paredes caídas, vindo das charnecas e dos pântanos, podemos ouvir algo,
primeiro apenas uma voz estridente, mais como um murmúrio, um tipo de som
miserável que progressivamente se torna numa orquestra canina com barítonos,
sopranos, tenores e sopraninos vindos de jusante, leste e oeste. Cães vadios
mutantes, sombras de agonia, fúria e transe, anunciando a presença de um
estranho - minha presença, a tua ausência. Mesmo. O cheiro do meu sangue
momentaneamente despertando os pecados do mundo. E você sonhando com um possível
inimigo, um possível salvador, quem sabe a cor da besta. Mas eu continuo na
linha, o que lá vai lá vai. O tempo
passa e as vozes começam a decair, a lapidar, os latidos e ganidos se
transformando em uivos distantes... E finalmente, o silêncio novamente, seus
olhos permanecendo...

***

Outra era se foi, e lá no topo, no topo da
encosta, um poste de luz esperando por mim, esperando por nós. Diminuo a
marcha, e coçando a cabeça, finalmente olho para trás, mas nada de irregular eu
noto. Então, quando me viro novamente para o poste, vejo... mais como um... aí
está você, esperando por mim... eu me aproximo. Sim, é verdade, é você aqui
(ali) situado nesta rocha sob este poste de luz, esperando notícias. Mas que
diabos, parecemos tão parecidos, eu diria, sou eu e não tu, e adivinhem...
vagarosamente a coisa desce da rocha, aproximando-se, movendo suas pernas de
borracha devagar, olhando para o topo do meu ser, e eu também olhando para
dentro da silhueta "dele", seus lábios tremendo, coço a cabeça novamente.
Imóvel sob esta luz amarelada. Reflexos no céu, poeira estelar.
Inesperadamente, aquilo que parece ser um chapéu de coco vem com o vento cair
no chão lamacento entre nós dois, e, sem perder tempo, sou eu que estou
avançando dois ou três passos e piso a bainha desse mesmo chapéu... e "a
coisa" também dando alguns passos frente, fazendo os mesmos movimentos
que eu, também pisando a aba do chapéu. Nós os dois cara contra cara, os
narizes quase se tocando, os olhos ficando maiores, e só agora eu posso realmente
perceber que, apesar da nossa semelhança, não somos realmente iguais. Alguns
segundos de silêncio perturbador se seguem... a eternidade falando.

***





- E daí?
- Quem é quem? - Sim, o quem é o quê?! - Eu sou aquele! - Você é o quê? - Sim,
eu sou o que dá... - Você é o que dá o quê? - Eu sou o que dá sentido! - Você é
o que dá sentido ao quê? - Eu sou o que dá sentido s suas perguntas! - Mas que
perguntas?! - Quem é você e quê? - Eu? Eu sou tudo o que há entre este chapéu e
essas botas! - Não é grande coisa, já estou a ver, e o que você está fazendo
aqui? - Igual a você, apenas observando as vistas... - E por que você diz isso?
- Porque minhas cordas vocais desejam assim... - Com muita certeza você fala! -
Sim querida, tenho a verdade do meu lado... - Mas que verdade? - A verdadeira
verdade. - Não é talvez a verdade chifruda? - Entendo, você se sente como uma
besta e fala como um animal. - Um animal pelo menos não precisa se preocupar
com o raciocínio. - Ah sim, como você sabe? - Um cachorro pode descansar em paz...
- E você não descansa? - Não, eu tenho medo de machucar as flores. - Hum, bom,
bom... mas você deve saber que o sofrimento é inseparável da vida. - Eu sei, eu
sei, mas... - E o que mais você sabe? - Eu sei que suas intenções não são
dignas... - Por que não dignas? - Porque eu vejo, tudo que você quer é
explorar, virar, confundir... - E o que é indigno nisso? - Seu objetivo é a
destruição... - Você está errado amigo! Só estou tentando encontrar o caminho
para o castelo de areia... - E por que você acha que eu posso ajudá-lo? - Você
já está ajudando... - Hum, é bom ser útil... - E o que mais posso fazer por
você, irmão? - Você pode me ajudar a tirar essas botas? - Claro, agora apenas
sente-se e estique a perna. - E as flores? - Veja! Você se preocupa com os
passos que vai dar e não com os que já estão sob seus pés! - Eu gostaria de
poder flutuar... - Não precisa ser tão ingénuo, companheiro! Podemos resolver
de outra maneira... - Como? - Se você subir naquela árvore e se pendurar em um
de seus galhos, eu facilmente posso fazer o trabalho que você precisa que eu
faça. - E então o que você fará com as botas? - O que você quer que eu faça com
elas? - Você pode fazê-los desaparecer? - Eu não sou um mágico, mas talvez eu
possa enterrá-los em um buraco e... - Eu não pretendo vasculhar a terra ... \u2013
Então talvez eu possa escondê-las sob as folhas secas... - Mas ainda assim elas
continuariam a existiria \u2013 Tambem posso, incendiá-las... - Talvez seja uma boa
solução... - Então vamos lá. Você pode agora avançar na direcção dessa árvore,
por favor? - E as flores? - Eu vou te levar nas minhas costas. - Não, eu não
vou deixar você me tocar... - Então, nada feito... \u2013 Isso mesmo, nada feito,
vamos esquecer tudo isso, eu já esqueci essas botas... - E você ficará aqui para
sempre? - Fico aqui até encontrar uma razão... \u2013 Mas eu preciso que você venha
comigo... \u2013 Com mil diabos! Para onde você quer que eu vá? - Precisamente para
o castelo de areia... - Agora? - Talvez... - E por que você não vai sozinho? -
Porque só você pode me ajudar a encontrar o caminho. - O que o faz pensar isso?
- O motivo está estampado no seu rosto... - O que tem o meu rosto? - Vejo que
você carregar a chave em si. \u2013 Há sim! Por dentro ou por fora? - Dentro e fora.
- E o que está acontecendo nesse castelo de areia? - A liberdade mora lá... -
Hum, então esse é o seu ponto, a liberdade? - Isso! - E o que vou receber eu
para mim? - Você entenderá a verdade. - Avancemos então rápido! - Eu já não
posso agora... - Mas porquê você já não pode? - A incerteza acabou de tomar
conta de mim, desculpe... - Mas seu objectivo é a liberdade, e eu o levarei a
isso... - Agora já não confio totalmente em você! E por que você não confia se
a verdade está comigo? - Eu sinto que a incerteza é mais forte que a verdade...
- Eu me sentia assim ainda agora e não sinto mais... - Você se sente livre? -
Eu sou capaz de seguir em frente... - E você é capaz de fazer isso sozinho? -
Não, porque o castelo é uma invenção sua. Sem você, não há castelo... - Então
você acredita que minha fantasia é real? - Eu acredito que é tudo a mesma
coisa... - E você acredita que a liberdade me espera? - Eu acredito... - E se
eu conseguir essa coisa da liberdade, o que você vai conseguir? \u2013 eu alcançarei
o tesouro escondido no castelo... - E suas botas, elas não impedirão sua
partida? - Agora vou tirá-las. - E não mais tem medo de machucar as flores? -
Não, na verdade, agora me sinto cheio de coragem. - Acalme-se, acalme-se...
parece-me que não precisamos mais ir... - Oh deus meu ... mas porquê !? - Porque
a liberdade está prestes a vir aqui agora... - Ah, e lá vem ela... - Sim, e lá
vai ela! - Não pode não! - Ela já se foi sem nos notar... - Oh nossa,
totalmente perdida estamos agora... - Vamos atrás dela, atrás dele, já... -
Não, não e não. Era para nos encontrar mos no castelo... - Talvez ela volte...
- Volte para onde? - Para o castelo... Não, não há mais castelo, sem liberdade,
não há castelo... - Olha, deve haver castelo, porque eu sou a chave que te
levará ao castelo... - Exactamente, a liberdade carrega com ela o castelo, para
onde vai, o castelo irá... - E você viu algum castelo passando? - Não, você é
quem deveria ter visto, porque você é o guia! - Eu não vi nada... - Mas qual
função tem a verdade se você é cego? - Talvez a verdade seja tão cega... - Bem!
E agora? - Agora eu não sei quem sou mais! - Você é o único debaixo desse
chapéu. - E você, você é... você é quem está acima dessas botas, certo!?
Certamente! - E você ainda poderá me ajudar? - Sim, eu vou ajudá-lo a
reconstruir o castelo... - Esqueça, não quero mais ouvir falar de castelos... -
Então você não precisa mais de mim? - Não, você pode ir! - Mas eu já estava
aqui quando você veio ... - E? - E este é o meu território. - E tão seu quanto
meu. - Não é verdade... - E o que você sabe sobre a verdade? - Fui eu quem
trouxe a verdade para você. - Talvez, mas agora o dono da verdade sou eu... - E
o que você fará com essa verdade? - Ainda não sei bem... tenho que pensar! -
Deseja que eu tire suas botas para que você possa ter mais precisão em seu próprio
pensamento? - Não há necessidade. - Você ainda tem medo de machucar as flores?
- Eu não sei! - Então você não vai mais a lugar nenhum? - Por que eu devo ir? -
Você queria ir atrás da liberdade... - Não, quem queria ir atrás dela era tu...
- Bem, eu não preciso disso agora. - Por que não? - Porque agora eu mesmo sou a
liberdade. - Bem dito, mas quem era essa beleza que passou por aqui minutos
atrás? - Na verdade acho que foi o desespero! - Oh, o desespero também é uma
mulher? - Verdade! - Se é verdade ou não, não é da sua conta, a verdade é do
meu conhecimento... - E o que você sabe? - Eu sei que você não vai a lugar
nenhum sem mim... - Cale a boca! Sou liberdade, eu vou aonde quero... - Então
vá. Por que não vai? - Não estou com vontade de ir agora, meu desejo é ficar
aqui, apreciando a vista... \u2013 A liberdade não faz coisas como "apreciar
vistas"... \u2013 Isso sou eu quem decide... - A liberdade não toma decisões.
As decisões são tomadas pela razão! - Não me diga, a razão agora é você? -
Exactamente! - E o que você decide? - Eu decido que você não tem liberdade,
você é o desespero... - Mas o desespero não passou por aqui ainda agora? - Não,
quem passou por aqui foi fraternidade... - Oh meu Deus, essa quem é? - Essa é
digamos... é a harmonia... - E por que não nos notou? - Porque não somos nada
além duns tolos... - Mas você é a razão, e a razão está acima do absurdo. -
Você está errado, a razão é capaz do melhor e do pior... - Ainda bem que ela
não parou, já que eu sou o desespero, eu jogaria a bunda dela deste mundo... -
E impossível ferir a harmonia! - Você não tem ideia do que eu sou capaz... - Ah
sim, do que você pode ser capaz? - Eu posso... sou capaz de prever o futuro...
- Hum, agora você é um mágico? - Com total segurança e satisfação! - E o que
você prevê? - Prevejo que a harmonia passará aqui novamente correndo... - Não
vejo nada chegando... - Você esquece que é cego, a verdade é cega... \u2013 Eu já
não sou a verdade faz muito, amigo\u2026 Eu sou a razão, já tinha dito... - E não é
a mesma coisa? - Você acha que é o desespero que leva magia? \u2013 Cale essa a
boca e veja! - Sim, aí vem ela... - Veja como vem cansada! - Deus abençoe! E de
que, de que tal criatura estará fugindo? - Rompendo com a minha profecia, eu
havia previsto que ela se tornaria o caos... - Eu diria que ela já é um caos
hiper-harmonioso... - Sua visão é ostensiva, meu diabo... \u2013 Eu sei que estou
certo! - Rapidamente você será outra coisa... - Cuide bem do meu destino! -
Agora você é a falsidade! - Isso não, atenção, que eu poso... - Você pode o quê?
- Eu posso, eu posso matar... - Noesis? - E não sou o único... - Isso é uma
acusação? - Você mentiu quando disse ter a verdade do seu lado, mentiu quando
afirmou ser a liberdade, mentiu quando se apresentou no papel do desespero... -
Você é que segue mentindo, eu nunca fui o desespero. O desespero passou por
aqui correndo e me contou um segredo... - Que segredo, que você é um imbecil...
quem passou por aqui correndo foi a tentação! - E por que eu deveria acreditar
em você se sou um idiota e você está mentindo o tempo todo... - Foi você quem
disse isso. Mas você não passa de um peão... - Então, quem é você? \u2013 Tome
atenção, agora eu sou a beldade! E isso aí! - Oh céus! Como você justifica
isso? Daí a minha incapacidade de machucar as flores, daí a minha inconstância,
daqui passaram três vezes, a tentação que corria... - Mas eu não acho você
bonito... - Você precisa me dar um tempo... - Eu não acredito no tempo... -
Olhe para as suas rugas e você acreditará. - Por que eu deveria olhar para as
minhas quando tenho as suas diante dos meus olhos? - Eu não tenho rugas, a
beleza não tem rugas, tudo o que tenho são qualidades! - Você está cheio de
importância agora.... - Olha quem está falando! Você se considerou um mágico...
- Mais uma vez, escute direito, eu não sou mais do que o que está sob este
chapéu. - Não vejo chapéu agora... - E as botas também se foram... - Porra, por
que ainda estamos aqui? - Uffa, aqui onde? - Lá nas sombras!! - Puta merda!
Foda-se você e suas sombras... - E também foda-se com suas pretensões e
representações de merda ... - Sim, foda-se tudo... Foda-se, Foda-se, foda-se
esse mundo, e o próximo... - Foda-se, foda-se! Filho de mil cadelas, tudo está
fodido agora, vamos embora ...

O CICLOPE SOU EU


Enfim, está ficando escuro e ventoso. Levantam-se redemoinhos e rãs. E
bom ouvir-lhes as entranhas assobiar, mas uma tempestade de areia está por ai a
cair, e... há luzes estranhas luzes no céu, primeiro parecem estrelas cadentes,
mas depois que fica mais escuro, frio e ventoso, vê-se que é algo diferente,
quais números decimais faiscando\u2026 Equações\u2026 Raízes quadradas\u2026 zeros e uns e
mais zeros e mais uns, zeros mutantes, transformando-se em... Mas que porra é
essa afinal, diz o ego! Parece a tela dum mercado de acções\u2026 E o vento está
ficando cada vez mais obliquo\u2026 Há vultos em ao meu redor, já... E eu deixo-me
abarcar nesses turbilhões de areia. A tempestade me empurra para aqui para além,
como quer\u2026 já não me sinto pesado como antes, mas os meus olhos estão feridos e
as equações matemáticas inscritas no céu de chumbo, continuam a aproximam-se\u2026 Ou
sou eu que estou paranóico? estúpido? Tento proteger-me na parte detrás das
dunas, mas o vento vira constantemente, e me suga como quer, por isso tenho que
correr, antes de voltar a cair e me sentir a afundar... mas que raio, logo estou
cheio de vigor novamente, posso correr contra o vento agora. Corro com os olhos
fechados, mas s vezes
tento abri-los para ver se estou chegando perto das torres ou não, essa é minha
última esperança, sim, por deus, as torres, e parece que estou conseguindo
agora... e de uma dessas torres um vulto fantasmagórico está vindo em direcção
a mim, embrulhado no vento... escuto já o seu murmúrio \u201cO Ciclope sou eu. O
fogo primordial soprado pelo anjo sonâmbulo\u201d, diz-me a criatura entrando pelo
meu corpo adentro. Mas antes de absorvê-lo, posso o reconhecer. Essa entidade é
a mesma que vi quando discutia com o meu duplo na estrada sob o poste de luz,
outro dia, outra noite, outro sonho, essa entidade é a verdade, reconheci a
cicatriz no seu queixo afinado. Essa é que é essa. Já me sinto mais forte agora.
Tenho a verdade dentro de mim, viva. Mas não é tudo, o céu anda por ai, aproximando-se.
Tenho a verdade dentro de mim, mas tenho de fugir, não vá o diabo tece-las. Mas
devo confiar em mim. Eu sei o verdadeiro caminho agora. E de outra torre
arruinada vem outro vulto envolto no vento, também, entra directamente nas
minhas entranhas, da mesma maneira que o anterior, mas eu também o reconheço, não
propriamente eu, mas o meu duplo, é o desespero, tive um vislumbre das suas
olheiras... ou talvez não, talvez seja a tentação, a tentação costumava ter
olheiras também... Droga! Já não tenho certeza agora. Como eu não tinha certeza
naquela outra noite, junto ao tal penedo, sob o pio do mocho. E agora, tenho a
tentação e o desespero lutando dentro de mim. Sinto vontade de lutar contra o
vento e de fazer amor com a areia ao mesmo tempo... De qualquer forma, o céu
está cada vez mais perto, mais medonho, devo continuar correndo. Preciso
encontrar uma solução final, mas... já não consigo orientar nem raciocínio nem
corpo, vou embrulhado num turbilhão, rodopiando e rodopiando, ainda, sinto
outro vulto chegar-se a mim, como que dançando comigo, e outro\u2026 e outro... a
ambição, a beleza, a alegria, o desejo, a liberdade, a confiança e eu não sei o
que mais quê\u2026 dentro de mim é todo um universo de sensações, acutilando a minha
razão\u2026 mas tenho que vir superfície\u2026 cá fora sou outro ser, o céu está caindo
sobre mim já não tenho medo algum, o céu está caindo sobre mim, mas tenho
confiança plena no universo\u2026 e lá vou eu ... Sendo sugado por esse céu
magnético, mergulho de cabeça nessa tela especulativa do stockmarker global. Sendo
analisado pela matriz. Meu corpo e existência extasiada pela electricidade
estática emanada por números primos, asteriscos, cardinais e parênteses em
mutação. Energia disfuncional correndo pelo meu esqueleto, carne e seiva. Uma
alma sendo lavada pelas paixões do futuro. Embora, na minha opinião, eu ainda
seja o mesmo, enquanto atravesso os túneis velocidade da luz, ou seja, sendo sugado
pelos tentáculos de todo o tipo máquinas esdrúxulas, e quando saio do outro
lado, eu sei, ainda sei o que sou.



***




Agora, pela estrada fora, desbravando um novo mundo. Por esta altura, já
apanhei uma serie de boleias, mais ou menos em sintonia com as forças e as
vontades do universo. Levado por pessoas silenciosas que não queriam saber quem
eu era ou para onde estava indo. Levado por pessoas preocupadas consigo mesmas.
Mas fui também apanhado por pessoas interessadas no meu destino. Levado por
pessoas que queriam saber quem sou eu e de onde vinha. Então, para entreter,
tive que criar alguns dados biográficos, coisas dispersas. E como falo várias
línguas e outras inventadas, posso passar por caucasiano, por beltrano, por
sicrano ou qualquer outra coisa. Portanto, s vezes eu disse ser fruto de um
incesto entre a lua e o sol, ou que eu tinha vindo do Caribe em um navio, ou
que estava chegando da Terceira Guerra Mundial, ou que estava fugindo do diabo
e, ou ainda, que estava procurando trabalho nesse país. Estava dispostos a
trabalhar com as frutas vermelhas, as frutas azuis, ou podia até subir postes
de electricidade. Ou talvez fosse apenas um mero turista sem lei proclamando um
novo mundo. Assim, em certo momento eu seguia já dentro de um certo tipo de
carro miniatura, aquele tipo de coisa que você pode dirigir com uma carteira de
motorizada, e o motorista, uma mulher madura, spray laca transbordando no seu
cabelo, o interior do seu bólide totalmente decorado com vários tipos de
ursinhos de pelúcia, macacos com sinos no pescoço, gatinhos cor-de-rosa, etc...
O auto-rádio balbuciando letras românticas, melodias suaves, ritmos saltitantes.
Ao longo do caminho, ela confessou vários detalhes sobre sua vida feliz e eu
fui ouvindo mais ou menos atentamente, observando também a paisagem verde escura
com ovelhas e vacas passando, ficando para trás e transformando-se em onças.
Assim, fiquei sabendo que seu bisavô paterno era de origem russa e tinha feito
fortuna trabalhando como ourives. Ela continuou explicando que sua bisavó
materna pertencera família real, mas fora completamente excomungada por causa
de adultério. Sobre as avós, a mulher não falou. Sobre o pai, durante toda a
sua vida foi sapateiro e morreu, ao que se sabia, com complicações no coração.
Já sua mãe, costureira, ainda viva da silva, mas internada em uma casa de
repouso a contar botões e a estender lençóis, e com esta história dos lençóis e
estendais a cantar ao vento, entrei num sonho familiar. Canhava agora numa
estrada de província, conhecia aquelas casas, tinha passado ali tantas vezes,
cada uma das casas tinha um pequeno jardim na frente. Pessoas nas janelas, batendo
em panelas e tachos, quando passo, como que escorraçando-me, mas eu vou andando
sem pressa, até que me vejo em frente ao portão de uma grande garagem, na
frente da qual alguns rapazes e rapazolas estão sentados, num muro baixo, essa
rapaziada lembrou-me certas personagens da minha pré adolescência, parece-me.
Bem, acabo por interpretar assim: estou aqui para reunir os meus melhores
amigos, de diferentes épocas e países. Uma estranha necessidade de fazer com
que todas essas pessoas totalmente diferentes se encontrem. Depois disso,
começa a chover, ou talvez apenas alguém cuspindo no ar. E um desses tais
rapazolas sentado no muro baixo, vai contando coisas ruins sobre minha
personalidade. Agora, a chuva (ou saliva) torna-se mais intensa e todos fogem
do muro para se vir refugiar na entrada da garagem. Mas há outras pessoas aqui
que não tinha reparando antes, pessoas mais maduras, um emaranhado de
guarda-chuvas na entrada da porta da garagem, e quando tento ajudá-las, também eu,
fico preso nessa confusão, ma a chuva logo desaparece e as pessoas com os
chapéus evaporam. Mas eu continuo emaranhado em mim mesmo. Do outro lado do
muro baixo, estão outro tipo de rapazolas, observando quem entra e quem sai da
garagem, e fazendo sinais, compartilhando segredos entre eles, e eu tentando
alcançá-los, mas é impossível, uma mão pesada me empurra para dentro da garagem
e a porta fecha-se com um grande aplaudir. Uma vez lá dentro, meus olhos se vão
ajustando s luzes rotativas. Aqui faz muito calor, e o chão é feito de terra
preta, como uma antiga adega. Existem grandes espaços vãos entre cada pessoa, e
parecem estar todos perdidos, ainda assim tentando desesperadamente comunicar, e
alguns dissimulando, parece que querem abandonar o local, mas quando se
aproximam do grande portão, há um forte magnetismo que faz com que eles, eu,
você, se afaste daquela zona de entrada, e o segurança, um homem músculos de
pedra, esboçando um sorriso doentio e olhando o relógio de pulso.



***




Agora já estou na casa de banho desse inferno
e encontro o manteigueiro, elaborando um discurso deste género \u201cSe você tem
dinheiro\u201d, diz o bicho, \u201cvocê pode entrar em um supermercado e comprar uma
barra de chocolate. Quero dizer, uma, duas ou três, tanto faz. Mas se você não
tem dinheiro, é melhor comer a barra de chocolate dentro do supermercado, e
observe os movimentos que faz com as mandíbulas e preste atenção no local onde
você joga o plásticozinho. Bem, se você tem dinheiro, pode voltar para casa em um
táxi e comer todas as barras de chocolate enquanto vai sentado no banco de trás,
observando o mundo passar... Mas se você não tiver dinheiro, supostamente
tentará ir a um outro qualquer lugar, não exactamente para uma casa, você pode
pegar um atalho, com certeza uma serie de atalhos e finalmente acabar no meio
de um campo com merda de vaca. Agora, se você tiver dinheiro, pode entrar em
sua casa, tirar os sapatos, ligar o computador e começar a fazer pesquisas no Google,
talvez pesquisas sem sentido algum, sobre satanismo, ecologia ou sexologia. Ainda,
se você continuar sem dinheiro, terá que encontrar uma maneira de deixar esses
campos lamacentos sozinho e voltar cidade pelo seu próprio pé. Mas, se você
tem dinheiro, pode ser que se canse de pesquisas cibernética sem sentido e
pode-lhe lhe dar uma vontade de sair novamente, talvez visitar um museu, ir a
uma galeria de arte ou mesmo ao cinema. Mas se você não tem dinheiro, vai com
certeza estar já passeando pelo centro da cidade e pedindo moedas a quem passa,
isso porque apenas uma barra de chocolate por dia não será suficiente para
preencher os desejos mais íntimos. Mas com dinheiro, depois do museu e da
galeria você vai com certeza entrar em algumas lojas de roupas no centro da
cidade para comprar algo novo para o seu novo estilo, porque está entediado com
o seu estilo antigo e quer impressionar, no cinema. E se depois de todo esse
tempo, você ainda não tem dinheiro, significa que seu método de mendicância não
é muito bom, ou talvez se sinta fustrado, por ninguém lhe ter posto uma moeda nas
mão nos primeiros dez minutos de mendigaria. Agora você abandona sua esquina e
volta ao tal supermercado para tentar sua sorte novamente. Mas se você é o, ou
a tal dinheiro, depois da roupa nova, você poderá ir a um bom restaurante na
parte alta da cidade, porque a noite está apenas chegando e seu estômago está
deixando sua cabeça criativa. Quanto ao outro, o sem dinheiro, talvez você
tenha tido sorte no supermercado onde já o conhecem, talvez lhe tenham
oferecido o que desejava, talvez você se encontre feliz agora, deitado porta
de um qualquer estabelecimento, acompanhado de algumas belas garrafas de vidro
esverdeado. As pessoas passando, vão olhando você estendido no chão, e as
garrafas entre suas pernas, você sorrindo para certas pessoas e para outras
fazendo cara de poucos amigos. Agora, se você tiver dinheiro, pode pagar a
conta do restaurante e dar um passeio nas grandes avenidas, de maneira a obter
uma boa digestão e ver as vistas, e quem sabe, depois de uma longa caminhada,
você pode encontrar seu irmão ou irmã, ainda deitado deitada no chão com essas
duas garrafas entre as pernas, agora já meio vazias, e você pode querer dar uma
moeda, mas é possível que perceba que seu dinheiro também terminou e não quer mais
ir ao cinema, então é até de se deitar no chão ao lado do seu duplo, e acabem os dois bebendo juntos e
discutindo política internacional\u2026\u201d



***




Agora, atravesso já uma auto-estrada qualquer, tentando aproximar-me
mais humanidade. Viaturas passando em alta velocidade, apitando e fazendo
sinais de luz enquanto tento atravessar. Algumas travagens, alguns palavrões.
No fosso, do lado oposto, um pacote de biscoitos que eu pego. Mastigando e
cuspindo pedras, vou subindo a encosta de quatro. Já no topo da colina,
vislumbro o que pode ser descrito como um jardim suburbano semi-abandonado,
terra arenosa e pinheiros mansos nas suas imediações. Grandes penedos mais a
frente. Erva seca. Lá mais ao fundo, pessoas passeando cachorros, cachorros
passeando pessoas. E eu vou caminhando por ali, pisando a caruma doce, vou
sentar-me num tronco. Ainda pensando no tal sonho da discoteca dentro da
garagem com chão de terra negra. Atrás do enorme balcão de mogno, as meninas
são mais altas do que qualquer homem presente na primeira fila. Essas garotas,
talvez modelos, manequins sem auto-estima, não me estão a dar atenção alguma,
aponto para as máquinas de cerveja e elas abanando a cauda como que de nada se
trata-se. Mas não desisto tão facilmente, voltando-me, tento meter conversa com
os homens da linha da frente, mas todos estão ocupados conversando com os seus
próprios cotovelos. Na segunda fila estão mais descontraído, dançando até, ou
fingindo dançar, com os copos na mão, batidas techno, Carl Craig e eafins, pego
dois ou três copos e volto a colocar em outras mão. Já na terceira fila
encontro uns tios conferenciando sobre futebol internacional. Eles parecem
estar um pouco chateados com o facto de eu me ter metido na sua conversa, mas a
primeira coisa que eles fazem é perguntarem-me logo qual seria o "meu
clube de eleição". E eu tento a sorte, digo-lhes que não tenho clube de
eleição, que vou com todos e não pertenço a ninhum, mas de alguma forma prefiro
os com bandeiras tipo xadrez. Eles parecem-me contentes com a minha observação,
nisto, fizemos vários brindes, e depois eles decidem perguntar-me quem sou eu e
o que faço ali. Todos ficamos em silêncio quando a palavra amor entra no jogo e
entretanto reparo no espelho, um rosto familiar se aproximando. Um bacano vestido
com roupas esportivas e brinquinho, o parceiro chega mais perto e me dá um
tapinha nas costas. Estou muito feliz por encontrá-lo aqui, ele vem buscar-me\u2026
junto abalamos dali pra fora, e descemos ao porão\u2026 mas agora estou de volta ao
jardim\u2026 o tal jardim suburbano com caruma doce\u2026 de aqui podemos ver uma espécie
de estátua gigante, não muito longe, trata-se de um grande homem feito de
cimento e pedra, e ao seu lado, uma outra estátua mais pequena feita de... musgo\u2026
Dai a nada, um turista vindo sabe-se lá de onde, aproxima-se, e começa a
disparar em todas as direcções, dispara sobre os arbustos, sobre as pedras, sobre
as árvores, sobre o chão... Tudo o que ele encontra ele tira fotografias,
incluindo a ele mesmo... e depois... para minha surpresa... o filha da mãe vem
já em minha (nossa) direcção e pás, sem me dar tempo ao tempo... o cabrão acaba
de fotografar a minha pessoa, eu aqui com as mão ocupadas, tentando enrolar uma
ganza\u2026 mas assim que me levanto a criatura desaparece\u2026 Dou uma volta por ali e
torno a sentar-me, desta vez ao lado da estátua. Depois, quando já tenho tudo
preparado, um rapaz, de ar um pouco esgazeado, aproxima-se e vem sentar-se ao
meu lado. Nós já sabemos o que ele quer. Ele começa seu discurso assim.
Primeiro, revela como está farto deste país\u2026 as pessoas deste país são
péssimas... porque apenas criticam... apenas dizem coisas ruins sobre tudo...
não se dedicam a criar nada de novo... e vai sorrindo enquanto diz isto, o magano.
Eu deixo-o falar, também sorrindo de certa maneira, e ele ao mesmo tempo que
manda umas bafuradas, continua... \u201ctodos os meus amigos emigraram... e eu
também quero ir, mas por causa dela, ainda estou pensando... mas acho que ela é
uma traidora... e os pais dela ainda pior, foram eles que envenenaram o
cachorro... \u201c E mais isto e mais aquilo. Nisto aparecem os manos companheiros
de Cristina, os tais dos walkie-talkies: Rômulo e Remo. Aparecem com um enorme
tronco de árvore, um pegando mais frente outro pegando mais atrás, e aqueles
que dançavam na relva desviam-se sua passagem, desvairados os manos
atravessam a pista de dança improvisada a toda a velocidade e \u201ckabong\u201d embatem
em cheio com o tronco contra a mesa do dj. O som extingue-se. A atmosfera gela.
Há gritos e apupos, risadas dementes e assobiadelas rasgam o cérebro dos mais
incautos.






***



E pronto,
práqui estamos ainda, atordoados com os factos inexprimíveis das coisas reais,
pela brisa concebidos, pelo espectro moldados, pela razão estupidificados, pela
vanidade libertos, seguimos sem direcção rumo ao presente. Atravessámos já
vários mundos e zonas, travamos conhecimentos com outros seres, em tudo similares
a nos próprios, ainda assim achamo-nos sempre diferentes, por vezes indiferentes.
Experimentámos já varias drogas unificadoras e malaicas, levamos nossos caprichos
ao fundo do mar e noutras galáxias colhemos os frutos silvestres onde o
burocrata não chegou. Prazeres assimilados, vomitamos agora uma dor que não era
nossa, devolvemos veneno a uma terra que nos criou com mel e fantasia. No
entanto, o fogo lavrará sobre as memorias, a cinza será levada pelo vento, e as
sementes poisaram nos vales mais inóspitos. Flores bizarras hão-de crescer par
a par com maquinaria nuclear ultra dramática. E nos seguimos, estrada fora, sem
crenças nem lei, atravessando brechas que supostamente não deviam estar lá,
derrubando falsos muros, escarnecendo sobre novos e velhos dogmas, afastando o céu
do nosso caminho. Somos anjos caídos, viemos em busca da salvação.



O LARANJINHAS

Em são Fagundo vivia o
laranjinhas, um sardento que tinha uma irmã com paralisia cerebral e um
irmão a que chamavam azeitonas. Na aldeia da torre viviam os netos do Abílio,
família de índios cultivadores de tremoço e apreciadores de rallys
piratas. Eu vivia na rua sem nome que ia da canada ao terreiro, sitio onde as
viúvas se ajuntavam para morder na vida de cada um. As líderes do
grupo eram a Bérrié, a Vitoria Somítica e a Salta Balados. Estas mulheres,
que sempre falavam dos seus ex maridos como santos, eram de
alguma maneira as orientadoras da moral da aldeia, e uma vez que não havia
capela nem padre, elas mesmo organizavam uma casa do povo a céu aberto no largo
do terreiro há tardinha depois de chegarem das respectivas fazendas.
A Bérrié, a mais velha, nunca gostara da fazenda, preferia
tratar das galinhas e do porco que tinha num barraco mesmo junto sua casa. A
Vitoria Somítica era perdida para apanhar pinhas e gravetos em
pinhais alheios, já a Salta Balados era uma cavadora de primeira,
de fazer ver a qualquer homem. Os filhos do Abílio gostavam de a ver
cavar, por vezes procuravam-na ao anoitecer para a auxiliarem na rega, e depois
da poça vazia ficavam com certeza a chafurdar no lodo já noite caída. O avô
Abílio sabia disso tudo mas preferia ficar na tasca a jogar ao dominó e não
contava nada aos amigos, só jogava a dinheiro e consta que ao fim do mês a sua
mesada era maior do que o cheque da reforma dos seus compinchas de jogo. O
velhote Abílio, tinha sete filhos, todos eles menos um tinham emigrado para a capital
na sua juventude, mas duraram lá pouco tempo, por lá arranjaram mulher e
logo voltaram para a aldeia depois de as emprenhar. O único que não emigrou foi
o Vergílio, que desde novo era manco das pernas por ter trepado a um poste de
electricidade a favor não se sabe bem de quê e dai ter resultado uma grave
fractura não só nas pernas, mas também no cerebelo. Os restantes seis
irmãos tinha casado com as tais mulheres da lida da rua da cidade, peixeiras,
vendedoras de fruta, padeiras e coisa do género. O certo é que as mulheres é
que trabalhavam, dado que os homens gostavam era de andar nas correrias pelas
freguesias das redondezas. E era com os netos do Abílio que eu me juntava,
putos filhos de mães cantadeiras e de pais ausentes que só apareciam em casa para
lhes dar tareias. Eu, o laranjinhas e os netos do Abílio fazia-mos cabanas n
meio dos mimoseais e montava-mos armadilhas nos carreiros que rodeavam os
nossos esconderijos. As nossas presas eram as formigas, raparigas da
mesma aldeia, nossas vizinhas e nossas inimigas talvez porque nos perseguiam ou
talvez apenas por serem do sexo feminino. Chamava-mos lhe assim, formigas, por
elas serem três e em vez de andarem na rua umas ao lado das outras andarem
sempre em fila indiana umas atrás das outras. As formigas eram a Lena, a
magrinha, a Adélia, a trombuda, irmãs e filhas de uma costureira e um condutor
de ambulâncias, e a outra era a Lúcia, filha de uma mãe que andava ao dia fora
e um pai que se contava ter morrido durante na cavagem de um poço. Dizia-se
que durante uma semana tinha trabalhado na abertura de um poço que chegara
quase aos cinquenta metros, apenas com uma picareta e uma pá, dia e noite ali
trabalhara e água nem vê-la. Cá em cima o irmão dava há manivela, puxando
a corda que fazia içar a cuba cheia de terra e saibro. Ao que parece no último
dia da semana o pendura tinha adormecido e Ernesto, assim se chamava o pai
de Lúcia, tinha levado com a cuba cheia de terra na tola, e morrera com o peso
do seu próprio trabalho. O irmão, responsável pela injúria, depois do
sucedido ficara mudo e tornara-se de tal modo dependente do álcool que as
pessoas da aldeia tinham pena dele. Um dia desaparecera de vez, dissera-se que
tinha emigrado para o Brasil e que uma vez lá deixara de ser mudo. Por
tais razões familiares, Lúcia era a formiga mais triste, aquela que costumava
andar no fundo da bicha, servindo de cauda ao pequeno pelotão. Quem costumava
ficar no meio era a Lena, a magrinha e mais arrebitada, ia no meio para melhor
poder comunicar com as outras e no meio sentia-se com certeza mais protegida.
Aquela que costumava ir na frente era a Adélia, a mais entroncada e trombuda, a
sua pele era bem mais morena que as outras, parecia de origem africana,
apesar dos seus pais serem puros caucasianos, ou quase. Seja lá o que isso for.
Dizia-se que saíra assim escura do ventre da mãe por lá ter passado mais tempo
que devia. E pronto, era ela a líder do pelotão, aquela que costumava cair nas
nossas armadilhas, que não eram mais do que laços de aço que se usam para caçar
as raposas. Adélia já tinha caído no laço varias vezes e ganhara-nos raiva, por
essa razão as formigas passavam a vida a destruir as cabanas que nós
construía-mos e era esta a nossa vida no caminho de casa para a escola e
da escola para casa. Acontece que um dia, o laranjinhas enrabichou-se por
uma das formigas, a Lúcia, e assim deixamos de ser inimigos das rapazolas. Com
a chegada da puberdade, os netos do Abílio passaram a dar em cima da Adélia,
conta-se que se encontravam s escondidas durante a noite na ambulância do pai
dela. Quanto Lena, aquela que ficava no meio do pelotão, passou a vir
fazer-me visitas a casa, como a mãe dela era costureira e a minha também, era
costume juntarem-se para melhor aperfeiçoarem a sua arte. Eu e Lena ficávamos
na cozinha a fingir que fazia-mos os trabalhos da escola e a praticar posições
sexuais que víamos nas novelas brasileiras do fim da tarde, isto vestidos, pura
encenação. Mais tarde o pai das ditas irmãs passara a trabalhar
noutros bombeiros de um outro vilarejo dos arredores e toda
a família se mudara para lá, assim deixei de ver as formigas. Mas
consta que desistiram da escola aos dezasseis anos e que passaram a
trabalhar numa fábrica de estofos de sofás, lá arranjaram marido,
casaram, compraram carro, fizeram o crédito para a casa e filhos para
decorar a mobília do lar. No entanto, Adélia, a mais entroncada, bate no
marido, um lingrinhas serrano que gosta de dormir até tarde, e Lena está
em vias de separação porque acha que já não há amor. Quanto a Lúcia, essa ficara
junta com os tal Laranjinhas, os dois ainda vivem na aldeia, não têm filhos nem
casa própria, vivem na mesma casa onde mora o pai de Laranjinhas, um
intelectual autodidacta de província e a mãe de Lúcia, a mulher-a-dias
que deixara de andar a dias e passara a tratar da irmã de laranjinhas, a
tal com paralisia cerebral. A pensão que esta recebe do estado é
aquilo que sustenta toda a casa. Um atestado de loucura que dá para toda a
família. No entanto Lúcia arranjou bolsa para estudar na universidade e Laranjinhas tem
o sonho de emigrar para uma ilha deserta.



***



E depois de sair da taberna, andei a tarde
toda sem avistar uma alma, até que, muito mais tarde, quando estava parado em
alguma encruzilhada, pensando, em um sulco, cercado por eucalipto, se aproximou
um indivíduo montado numa bicicleta, e chegando ao meu lado, para e me aponta o
caminho. Aceitei a sua sugestão e seguimos juntos, em silêncio, até que, depois
o caminho começou a descer, e ele me convida a montar em sua bicicleta\u2026 Por ali
abaixo vamos, pedrinhas a saltar dos raios das rodas, um tilintar interessante,
para mim, e eu decidido a não fazer perguntas... mas foi ele que começou, dai
me pergunta em que estava pensando, "nada" respondi, e quase tudo foi
dito. Depois, só para fazer conversa, acabei perguntando de onde ele estava
vindo. E prontamente ele me diz que já havia feito a rota da seda, a rota do
cedro, a rota do carvão etc. Eu disse para ele (para não ficar em segundo
plano), que também já tinha estado no crescente dourado e no triângulo
invertido, e mais... então ele me mostrou suas tatuagens nos braços e peito.
Algumas piranhas, espadas e monstros flácidos com vários olho e tentáculos.
Tinha passado temporadas na prisão, confidenciou. E havia sido libertado
recentemente. Todas essas tatuagens foram feitas por seus companheiros na
prisão, explicou, as piranhas feitas por este ou aquele assassino, as espadas
por este ou aquele estuprador, a âncora feita por este ou aquele traficante de
estupefacientes e, finalmente, os monstros flácidos tinham sido desenhados por
algum pregador, injustamente condenado. Então este novo amigo quis saber sobre
minhas viagens e em quais aventuras eu já havia participado. Eu disse a ele que
já havia estado em muitos lugares, mas minha memória não estava muito boa, no
entanto ainda me lembrava de Heliópolis, a cidade dos mortos, lugar por onde
tinha passado belas e vivas temporadas. E sobre essa história ele mostrou-se
interessado. Queria saber mais. \u201cE como um bairro de lata gigante, mas com
palácios pelo meio\u201d, disse eu \u201ca maior favela do mundo... a profissão original
da cidade dos mortos era guardiã dos túmulos, aliada ao guardião dos
tesouros... depois vieram suas famílias e todo tipo de fugitivos ali vieram
parar... estrangeiros fugindo de guerras sem quartel\u2026 órfãos de vários géneros
tipos transformados em perseguidores de escorpiões... \u201d E então o nosso amigo,
cortando-me as palavras (também não queria ficar atrás em matéria de viagens),
começou por me contar sobre sua vida nos Barbados, o acontecimento que o levou
prisão e sua vida enquanto estava preso. Na prisão, ele me conta que teria
abusado várias vezes, mas que já havia se vingado e estava tudo resolvido
agora. E sobre seu vício também confidenciou algo... mas desde que saiu de lá,
nunca tocou nessas coisas... esclarece. Mais adianta, que a família não quis
saber dele quando soube que tinha sido preso por tráfico, nem sequer
consideraram que o pagamento de uma fiança poderia ter anulado vários meses de
pena, que injustamente passou, dentro desse\u2026 inferno gratuito... No entanto, lá
dentro, tinha aprendido todo uma serie de técnicas novas em relação ao tráfico,
assaltos, saques e embranquecimentos... tinha também adquirido informações
secretas sobre como escapar do controle do estado sem problemas. O amigo, era
agora um profissional na abertura de fechaduras, fossem elas embutidas,
tubulares, magnéticas ou telescópicas. Ainda mais, explicou-me o gajo que havia
a possibilidade de usar interruptores de controlo remoto capazes de milagres.
Eu a ouvir atentamente. Mas este não foi o primeiro ex-presidiário que conheci,
é claro! (E eu também já fui preso mais de uma vez, embora nunca mais de dois
ou três dias). E em certo momento, quando o sujeito sentiu que estava j+a
confortável o suficiente comigo, me confidenciou que seu projecto futuro era
roubar um banco. Ele sabia agora como fazê-lo de uma maneira totalmente limpa.
Ele me convidou para ajudá-lo num processo que tinha em mente. Eu me senti
tentado. Então ele começou a explicar como e poderíamos fazer, tudo em
detalhes. Depois a conversa mudou, já tínhamos atravessado o vale, e tomamos a
liberdade repensar o que faríamos com o dinheiro do assalto. Ele me disse que
queria comprar um barco e aí ter o seu próprio negócio, em pleno mar alto. Eu
lhe disse que não tinha certeza ainda do que poderia fazer com o dinheiro,
porque não havia nada que eu quisesse comprar... ele desanimou um pouco... e
quando a próxima encruzilhada chegou, seguimos diferentes direcções...



***




Depois de mais algumas horas caminhando, a noite voltou. Saí daquela
estrada da floresta (ainda pensando no que faria com o dinheiro) e pulei em um
quintal, nos fundos havia uma casa isolada, mas a luz mal chegava aqui. No
entanto eu poderia ver alguma coisa, meus olhos estavam habituados
escuridão. O espantalho olhando
para a minha pessoa enquanto eu trepava as árvores de fruto. A lua cheia
iluminando essa fruta sumária e eu saciando minha fome. Talvez não comesse nada
havia dias. E essa fruta abençoada pela lua tinha um sabor indescritível. O
mundo parecia perfeito dali, daqui, a esta altura. Levo um certo tempo a
executar a operação, e depois desço, cuidadosamente, para não fazer barulho.
Nisto, olho de novo o espantalho e enterro-me nas terras flácidas de cultivo,
aproximando-me das casas ao fundo, chego perto dos arbustos na cerca, volto a
trepar, vejo através de uma das janelas onde há uma luz forte. Uma família
janta adequadamente. Todos sentados mesa, homem, mulher e crianças. As
crianças brincando com algumas coisas na mesa. A mãe os avisa, mas eles não
param. Depois que o homem avisa a mulher. Depois que a mulher avisa o homem. E,
finalmente, o homem de pé batendo nas crianças. Nisto, decido-me a fazer algo e
jogo umas pedrinhas na janela deles. E pelo som que emanou, a pedra talvez tenha
sido um pouco grande de mais. Num instante, afasto-me dali, da cerca, do
quintal, e volto para a estrada, uma estrada diferente agora, mais católica,
feita de asfalto, uma estrada feita para viaturas. No entanto, transito não
havia. Algumas luzes amareladas aqui e ali. Ninguém. Muitas casas podres.
Abandonadas. Fachadas frias. Valas geladas. Eu pensando de novo na minha rainha
do nada, e andando pela vila fantasma,
s tantas, encontro o prédio dos
bombeiros. Havia luz. Decidi-me a tentar a minha sorte ali. No início, os
soldados da paz não entendem imediatamente minha língua, então eu tive que
fazer sinais com as mãos, mas mesmo assim eles ainda não conseguiam entender
que eu era um vagabundo cheio de frio pedindo para passar a noite nos seus
aposentos. Então eles foram chamar o homem das transmissões, um tipo pálido que
sabia falar todas as línguas e também percebia de linguagem gestual.
Finalmente, alguém me entendia, ele até me disse que aquela vila estava como
que amaldiçoada, quase todo mundo tinha emigrado. Isso não era um problema para
mim, eu lhe disse, eu próprio já era uma espécie de fantasma, portanto. O homem
começou a falar em outro tipo de idioma, talvez me testando. E enquanto
estabelecíamos comunicações, os outros bombeiros, todos amontoados nas costas
do nosso tradutor, mais de uma dúzia, olhavam com expectativa para mim e para o
seu homem das transmissões. E claro que todos queriam saber quem eu era, de
onde eu vinha e o que estava fazendo aqui, por ali. Por sua vez, o tradutor
virou-se para eles e calmamente, explicou apenas que eu era um estrangeiro e
andava perdido. Quiseram saber de onde era eu, e eu lhes disse que era dos
Tauramataras, um país já extinto, submerso. Os soldados d paz, espantados e ao
mesmo tempo confusos, fizeram-me logo entrar na enorme sala de estar decorada
com antigas ferramentas de apagar o fogo e grandes fotos (ou quebra-cabeças?)
dos homens que tinham feito estória naquele quartel. Então, fizeram-me sentar
numa enorme mesa de castanheiro, e trouxeram-me comida, bebidas e sobremesas.
Eles me olhando com gosto enquanto eu comia, ao mesmo tempo que continuavam
fazendo perguntas sobre a minha identidade. Fiz saber que eu era uma espécie de
mensageiro antiquado, carregando mensagens de um país para outro, mensagens secretas
do passado e do futuro, para serem contadas de homem para homem. E o tradutor,
o homem das transmissões, seria ele o homem que passaria a minha mensagem, ele
escolheria seu receptor, um incendiário, talvez. Intrigados, os soldados da paz
ainda queriam saber mais sobre a minha mensagem, mas repeti que tudo era
secreto; no entanto, eu poderia dar alguns conselhos a eles, conselhos
personalizados a cada um dos meus ouvintes. Terminei a minha janta, a mesa foi
levantada e levaram-me para outra sala, mais pequena e acolhedora. Ali iria
receber um a um,
em privacidade. Então comecei o meu trabalho,
chegou o primeiro, muito ansioso, e eu o aconselhei a mudar completamente sua
vida, o aconselhei a deixar sua casa e seu lugar, porque o perigo estava
chegando em breve, por sua porta dos fundos. O logo veio, eu disse que tudo
estava bem para não se preocupar mais com o que os outros poderiam ou não
pensar de si mesmo. Já ao terceiro, sugeri que fosse menos arrogante consigo
mesmo e com os outros. A seguir, eu lhe disse para ir procurar Deus. Ao quinto,
aconselhei a estudar a água cientificamente. Ao sexto sugeri que presta-se mais
atenção aos seus sonhos. Ao sétimo, eu disse que o único amor possível era o
amor primeira vista. Caso arrumado. Ao oitavo, escrevi a mensagem em um
jornal e disse-lhe para entregá-la a uma pessoa de sua escolha na rua. Ao nono,
eu lhe disse que parasse de comer porcarias. Ao décimo, aconselhei alguns bons
filmes a preto e branco, de Tarkovsky, Bergman e Polanski. E, finalmente, ao
tradutor, confessei a verdade, eu era apenas um impostor, um charlatão, e o
tradutor também se confessou não ser tão diferente de mim... fomos depois para
quarto de beliches, havia que dormir agora, ele usando a cama de cima, eu a de
baixo, os dois em silêncio, mas sem dormir, ouvia-se o ranfonho de um rádio mal
sintonizado, ao longe\u2026 havia noticiários e opera ao mesmo tempo, anuncio
comercias repetidos varias vezes, e por vezes uma pessoa falando, a mesmo voz,
um tom sério, fanhoso e não sentimental\u2026










Vejo agora vejo Hipólito beijando a parede branca, grunhindo e se
masturbando contra parede, e as enfermeiras em seu redor, segurando seus
braços, pernas e pénis... arrastando-o pelo chão... e tudo fica branco de
novo... até que eu começo a visualizar os corredores, depois o jardim, imagino,
vejo, a minha rainha de nada, vestida de noiva (seu vestido um pouco
esfarrapado e amarrotado), ela entra no edifício vinda do exterior e se cruza
com Hipólito e as enfermeiras agarrando o homem ainda como podem, mas ela não
liga nada, corre logo para o acesso escada, a porta se fecha nas suas costas,
luzes acendem e apagam medida que ela sobe, entra depois num outro corredor
mais estreito, depois volta a descer outro lance de escada, vira novamente
esquerda, vira direita, há portas e mais portas fechadas em ambos os lados do
corredor, ela abre algumas, coloca a cabeça dentro, grita e volta de novo ao
corredor, batendo porta após porta, lá vai ela, puxando o vestido para cima
como pode, para não tropeçar. Volta escadaria. Mais corredores. No quarto
43B, ela gentilmente gira a maçaneta da porta e entra lentamente, andando na
ponta dos pés. Lá dentro está escuro, apenas um abajur macio no meio de duas
camas desfeitas, podemos ver. Quando nossos olhos se acostumam luz, podemos
ver um corpo em um canto, de costas, encolhido na posição fetal, tremendo e
emitindo um zumbido... a minha rainha se aproxima das camas desfeitas, cheira
os lençóis, e colocando a cabeça debaixo da cama, murmura: "Cheguei, meu
amor, vim buscá-lo agora mesmo, nosso navio está esperando, vamos lá";
"Shiiiu!", é a resposta que vem de baixo da cama. E lá volta ao
corredor, correndo, arregaçando seu vestido, vira direita vira esquerda,
sobe outro lance de escadas, vira esquerda vira direita e entra agora no
quarto 32A. A mesma cena novamente, apenas desta vez as camas estão ocupadas e
seus ocupantes conversam assim: "O ódio é um insecto que algumas pessoas
têm no estômago"; "não está no estômago, está na glândula exócrina";
"não, eu já tive, os médicos tiraram do meu estômago "; " isso
foi o que eles disseram"; "não eu vi "; "e você viu e qual
era a cor do bicho? "; "isso eu não sei agora, estava escuro, mas
acho que era magenta", "mangenta, isso nem uma cor é, isso é uma
fruta "; " mentira ";" verdade " e a minha rainha do
nada intervém: "Trago boas notícias, meus amigos"; "já sabemos
que você vai se casar com Bruna, mas desta vez com quem?";
"segredo"; "e magenta é uma cor ou uma fruta?"; "Uma
fruta\u2026 um cachorro\u2026 Um destino\u2026\u201d Mais uma vez, os sapatos de bailarina
deslizando pelo corredor labiríntico do hospital. A minha rainha subindo uma
escada em forma de caracol com os quatro membros no chão. Sala 27B. As duas
camas estão vazias e impecavelmente feitas, a luz está acesa e a sala está sendo
inspeccionada, tudo está no lugar e não há sinal de que alguém more ali. A
minha rainha procura dentro do guarda-roupa, inspecciona debaixo da cama,
observa o teto com algum interesse antes de sair e entrar em outro quarto
frente, 27A. Aqui há apenas uma cama, na qual alguém pode fumar. "O que
aconteceu com os que estavam na sala da frente, receberam alta?"
Exige saber a minha
rainha. "Com certeza se transformaram em moscas e fugiram pela
janela", respondeu uma certa voz seca de um homem efeminado. "E eles
não vieram atrás de você também?" pergunta a nossa rainha. "E não
estão já no teu alcance também?" repete a mesma voz efeminada.
"Procuro o meu noivo..."; "mas quem é seu noivo afinal?";
"ele morava aqui..." e lá vai novamente Bruna correndo em direcção s
escadas. Desta vez, ela entra na sala 13B. Há luzes de Natal na mesinha de
cabeceira e em uma das camas dois indivíduos enrolados em papel prata estão
pulando na colchão e fazendo alguns gritos animistas. "O que esta
acontecendo aqui?"; quer saber a nossa rainha. "Hoje é noite de São
João", "noite de Santo Antônio" corrige o outro. "São
João", insiste o primeiro. Lentamente, a nossa rainha está de saída,
murmurando, arrastando o seu vestido, sobe o último lance de escadas até chegar
sala 9A, que fica bem no topo dos últimos degraus. Ela tenta abrir a porta,
mas está bloqueada por algum objecto dentro. A nossa rainha enfia a cabeça,
está escuro, mas acontece que dá para perceber, há um corpo ou algo do género
bloqueando a porta "você está atrasado, seu noivo está morto, ele estava
muito nervoso por causa do casamento, então eu o matei", diz uma mulher
jovial pendurada no teto, cabeça de mulher mas pernas de aranha. E a nossa
rainha desata a chorar e atira-se sobre o corpo, beijando uma cara, que parece
ser de lagarto, ainda quente, suas lágrimas pingando a pele escamosa do bicho,
e a mulher aranha no tecto se movendo para cá e para lá, tentando escapar as
investidas da nossa rainha para a alcançar, mas a mulher-aranha escapa-se pela
janela, e a nossa rainha tentando puxar o corpo do lagarto para fora do quarto,
mas é muito pesado, e ela grita, chora, geme, as luzes do corredor incidindo
sobre a cauda do animal, ainda movendo.

O POLITICO, O GORILA, O COZINHEIRO, E A MADAME DE SERVIEO

Políticos, todos nós somos abrigados a
assistir aos seus discursos, ora falinhas mansas ora pretensiosamente
entusiasmados, o nó da gravata apertando-lhes as bagatelas, ao vivo e a cores,
lábios trémulos, dependendo da qualidade do televisor, instalado na sua sala de
estar, nesta ou naquela barbearia, nalgum tipo de cafeteira citadino, numa
montra, assim expostos gratuitamente, ou talvez numa gordurosa taberna de
província... Tu agora ai assistindo a isto, sentado no teu banquinho de
cortiça, encolhido, pensando noutro tipo de coisa, mais ou menos irrelevante, e
pessoas ignorantes em teu redor, bufões, canalhas. Isso pode ser no início do
dia, durante a hora do almoço ou depois do jantar. A expressão maçante do
politico pontuada com algumas caretas e sorrisos defeituosos. Os olhos
brilhantes, como um touro, nunca olhando directamente para você, mas para o
canto do ecrã. No entanto, a certa altura, a fluidez da sua fala pode capturar
a tua atenção e a atenção de seus parentes. Talvez você não esteja realmente
entendendo todas as palavras, mas continua assistindo, ainda que por vezes
olhando para um ou outro lado, tentando identificar a origem deste ou daquele
comentário bobo, ou talvez esteja comendo seu lanche ao mesmo tempo, e precise
de limpar a maionese que lhe escorre pelo canto da boca, portanto, enquanto
você mastiga sua comidinha, continua olhando a tela, hipnotizado. Há algo na
indignação do político que diverte você. Mas, mais cedo ou mais tarde, você se
vai entediar com os mal-entendidos e cuspirá a comida no prato, começará a
protestar, a satirizar quem sabe, e também já quer emitir opiniões, porque sim,
porque tem direito a isso.

***

Desde a cozinha, chega uma voz rouca e
grave, não lhe vês a cara, mas sabes quem é, é o cozinheiro exigindo-te que te
cales com teus comentários reivindicadores de merda, como se estivesses a falar
para o politico em directo, como se ele estivesse ali tua frente,
comentários reivindicadores e bacocos ao mesmo tempo, o cozinheiro não está
para te ouvir, e faz uma ameaça, alerta que se não te calas, ou tuas bolinhas
poderão acabar no óleozinho que esta borbulhando nas fritadeiras electrónicas,
no meio da batata frita. Aqui o politico também se confunde um pouco com a
situação, e dirige-se ao comentarista. O comentarista vira-se para trás e
ordena aos punks que podem entrar, chegou a altura de entrarem em estúdio,
venham, e aí estão eles, todos vestidos de couro, adereços esfarrapados e
correntes, sem cachorros, mas vêm cercados por seus amigos avant-garde,
vestidos de oficiais da polícia, que não podemos ver agora. E, é claro, quando
entram, imediatamente perguntam logo onde fica esse banheiro futurista que lhes
foi prometido. O comentarista aponta uma direcção, e eles vão logo,
atravessando uma parte do estúdio que apenas o cinegrafista deveriam pisar, de
costas para as câmaras, arrastando suas correntes pelos tapetes falsamente
persas, limpando a lama das botas contra as cortinas onde não há janelas, e em
certo momento, um ou outro voltando-se, apenas para provocar o público, que é
forçado a aplaudir. No entanto, seus amigos, os tais vestidos de polícia,
sentam-se no sofá, entre o comentarista e o jovem político. Acontece que esse
pessoal, usando algum vocabulário da jurisprudência, começa a criticar o
político, diz que seu discurso é contraditório, mais como um poeta futurista. E
um deles chega mesmo a perguntar \u201cMas porque é que todos os políticos querem
salvar a humanidade, como é o coração dum político, você pode explicar? A
retórica não será o contrário do sentimento? \u201d e o político não responde logo,
olha em redor, tentando entender se tudo aquilo é serio, se está mesmo a ser
filmado, mas o comentarista está olhando para ele, esperando a sua reacção.
Então ele tem de se defender \u201cVocê não pode dizer que se trata apenas de
retórica, ou vontade de poder, para adiantar o seu próximo argumento, é bom
lembrar que as palavras também têm um corpo, uma vez liberadas, elas caem sobre
a humanidade como um todo, e as pessoas, são as pessoas que tratam de fazer as
suas interpretações, até a existência não biônica vai fazer as suas
interpretações. A interpretação é uma coisa carnívora. O desejo de tornar a
nação mais rica, pode ser pessoal, pode não, todos nós escutamos vozes
interiores. Até a conquista da felicidade pode também ser um discurso política,
se tivermos atenção, fazer política é estar convencido que não estamos
sozinhos, tão simples como isso. E aqui, o comentarista intervém. \u201cEu tenho que
dizer uma coisa, sim, todos sabemos, a vida é sobre mudanças, mas uma intenção permanente
de reestruturar o sistema nos deixará doente. As vezes é hora de parar e
aceitar o mundo como ele é, descansar, ouvir as nuvens, seguir o fluxo... não?
Ao contrário da alma sensível do artista, suando e sangrando o tempo todo, seu
formigamento escondido em um qualquer lugar do interior, constantemente em
guerra com seus próprios monstros, monstros que ele absorveu de artefactos
sobrenaturais... sendo criança eternamente, para quê?\u201d e estas foram as
palavras do comentarista, mas parece, ninguém percebeu porque é que ele estava
agora a falar de artistas, que tipo de insinuações eram aquelas? Seria ele
também um pseudo-artista frustrado que tinha acabado apresentando a
meteorologia\u2026

***

Bem, agora podemos imaginar, os punks
abrindo caminho pelo banheiro adentro. Sobre o vidro (espelho) estão já
cozinhando uma espécie de farinha, e todas torneiras e tubos estão sendo
removidos, conseguiram abrir um buraco no tecto, e ai se tão metendo\u2026 Noite sem
estrelas. Amena. Ao dobrar da esquina, Xavier enfia a mascara de gorila e
inicia sorrateiramente a subida da calçada em direcção ao ruído humano. Lá ao
cimo, onde a rua estreita e o céu fica mais perto, uma série de casas
nocturnas, abertas a esta hora, são o chamariz para o aglomerado de corpos que
por ali deambula de copo na mão.

Por entre risadinhas, sussurros
e lamúrias, ouvem-se discussões bacocas sobre a existência. Interjeições de
conotação dúbia. Olhares mais ou menos lascivos rematados com pronuncias
esquisitas e poses a armar ao pingarelho. O fervor ateu ou a imagética de um
deus estrambólico com muitos braços e pernas mas incapaz de tomar decisões. O
heroísmo crítico paranóico. As meias verdades enxovalhadas. Estórias da
carochinha e do caruncho. Frases inacabadas. Verbos que se atropelam. Pessoas que
murmuram, talvez felizes neste ou naquele instante. Pessoas que olham o céu
fechado e se deixam cair preferindo sonhar enquanto os outros lhe cospem
cerveja em cima. Pessoas
que se molestam, beijos roubados, estórias de touradas no parlamento e pausas reconciliadoras
para ir mijar. "E eu tenho dois amores... Ahu! Ahu!", debita o
mascarado ao chegar junto das gentes boémias "que em nada são iguais... Ahu! Ahu! Mas não tenho a certeza... Ahu! Ahu! Se são
fictícios ou irreais... Ahu Ahu Ahu!"a principio não lhe prestam
muitaatenção. Mas não tenho a certeza! ahu! ahu!" e dando mais murros no
peito, "de qual eu gosto mais! ahu! ahu! ahu!\u201d, cantarola ao mesmo tempo
que faz uma série de piruetas pelo meio dos transeuntes boémios que por ali
deambulam. Três raparigas de cara rosada afastam-se demonstrando um riso
assustadiço. \u201cA relatividade só existe com o conhecimento do absoluto, mas...\u201d,
interrompe um pequeno intelectual com cara de fastio e barbicha estudada. O
gorila chega perto dele e continua a sua lenga-lenga \u201cmas não tenho a
certeza... ahu ahu ahu... o absoluto ou o relativo... qual deles está o mais...
ahu ahu ahu\u201d. Um grupo de estudantes arrasta-se pelo chão, procurando, quem
sabe, moedas antigas, \u201cmas não tenho a certeza... ahu ahu ahu... doutor ou engenheiro...
porquê tão banais\u201d. Entretanto, ali perto, junto entrada de um bar, um rapaz
de cabelo verde toca guitarra de maneira tosca enquanto outro com uma argola no
nariz grunhe frases como \u201cvão todos pó caralho, vão todos pó caralho; mandem
com a cabeça no soalho\u201d; ou \u201cvão-se todos foder, vão-se todos foder, vamos
todos
morrer\u201d, ou ainda \u201cjá não como pasteis, já não como pasteis, estou-me
a cagar para as vossas leis\u201d. Junto a este par de músicos raquíticos alguns
outros rapazes ou raparigas de aspecto dubio andam por ali encenando passos de
dança desconexos, maltratando-se uns aos outros e logo depois abraçando-se
efusivamente, e o nosso gorila aproxima-se sorrateiramente e vai abraçá-los
também, mas o pobre coitado é escorraçado e pontapeado, não tem sorte. Já
dentro do bar o nosso gorila diz que se chama Xavier. \u201cUma esmolinha para o
gorila, por favor, que não se pode amar de boca seca\u201d; \u201cvolta mas é para o
jardim zoológico, oh macaco\u201d; \u201cuma esmolinha para o gorila, por favor, que
preciso de recuperar a minha condição humana.\u201d Mas Xavier parece não ter muita
sorte, pois logo aparece o segurança do estabelecimento que prontamente o
adverte \u201cNão podes estar aqui mascarado nem a pedir\u201d; \u201cnão posso estar aqui
mascarado tanto quanto tu não podes estar aqui de tromba\u201d; responde Xavier ao
mesmo tempo que leva logo uma cabeçada e mesmo assim não lhe cai a
mascara. O nosso gorila ainda tentando
empurrar o segurança, defender-se, mas a malta do bilhar vem com os tacos na mão,
não se percebe se para defenderem o gorila ou para defenderem o segurança, e
logo há cadeiras e mesas a voar pelo estabelecimento e há quem se esconda atrás
do balcão e aproveite para roubar, e quem está na rua a querer entrar para
tentar assistir ao espectáculo de mais perto e quem estava lá dentro a tentar
fugir, e empurram-se, e apalpam-se, e partem-se vidros e ossos e há cada vez
mais óleo na pista e no céu, tudo na mesmo.

***

Mas voltemos ao discurso do político, em
directo para a televisão, \u201cE assim, uma pessoa chega a um ponto que só precisa
fazer assinaturas, se não quer enlouquecer, apenas precisa ouvir o que
subordinados tem a dizer, uma pessoa apenas tem que escolher as melhores
ideias... As
vezes aleatoriamente... Deixando as emoções de lado, o que interessa é
o humor, mas não estou a falar de piadolas, chega-se a um ponto que, uma pessoa
sabe, depois de um longo mandato, já não há muito mais nada a acrescentar, o
objectivo é sempre o mesmo, crescimento económico, a salvaguardarão dos
direitos da população, é esse o ponto que sempre devemos repetir em nossas
aparições públicas, mais o equilíbrio virtual da sociedade ital...\u201d E aqueles
que estão sentados ao lado do político, vestidos de polícia, agora satisfeitos
com a franqueza do politico, dão-lhe palmadinhas nas costas, e você, o tal que
estava antes sendo advertido pelo cozinheiro para não proferir comentários
jocosos, já não está a ver nada, caiu entretanto do seu banco de cortiça, e
está agora escarrapachado no chão, roncando.
O tipo com bigode de
lagartixa ainda está por perto, na porta, fumando cigarros compridos,
lentamente, olhando para fora, o tráfego nocturno. Um táxi se aproxima, um
homem careca de meia-idade sorri para o tipo com bigode de lagartixa,
convidando-o a entrar e eles seguem para a cidade, rasgando a neblina, o
auto-rádio fala assim \u201cE em algum momento, ele não quer mais estar no comando
de tudo, ele deve deixar o seu partido tomar as rédeas. Chega o momento em que
ele apenas tem de representar, ele na verdade estudou os bons artistas, em seu
exílio, então agora ele sabe como imitar a realidade, pode dramatizar uma
opinião e torná-la mais realista ou mais confundível, muita emotividade não é
boa, mas ele também se deve deixar levar pelas emoções, ele aprende a fazer um
equilíbrio entre mente, alma e espírito autocrítico, um político tem que ter
uma alma, porque quando ele está no topo o mundo, é essa alma que o vai
preencher. Ou seja ele não é mais a mão que segura a tocha, ele se transforma
na própria tocha, a sociedade. Ele é a mensagem agora, ele é o ar, ele é o
vazio... o buraco negro. Ele não tem mais ideologia. Ele apenas reorganiza as
ondas energéticas. Ele coloca ordem no discurso de seus camaradas. Ele conhece
seu público e lhes dá doces. As vezes doces um pouco amargos, você tem que
fazê-lo, porque as pessoas também saturam com as boas intenções, as pessoas
estão cansadas de propaganda, as pessoas estão cansadas dos mesmos cortes de
cabelo, as pessoas vão encontrar algo amoral em meu nariz agora mesmo...\u201d
dentro do táxi os homens cruzam olhares. Que raio de político era aquele,
pensão eles, entretanto mudam o rádio para outra estação com musica sinfónica e
seguem devagar, circulando pela parte alta da cidade, a tal zona boémia,
primeiro ruas desertas, depois umas ruas mais apertadas e depois a tal rua repleta
de grupinhos, algum alvoroço, e lá ao fundo um gajo vestido de gorila foge de
um grupo de pauliteiros, e há punks no fundo da cauda.

***

Agora de volta ao restaurante, o fogão
continua fritando bolos de abóbora, há uma família inteira comendo-os em uma
mesa central, eles são os únicos clientes. As crianças estão por baixo da mesa,
brigando ferozmente por nada, e seus pais chutando-os sem piedade, com as bocas
cheias de açúcar, olhando a televisão, ainda o mesmo político e comentador de
cabelo lânguido, diz assim \u201cmas conte-nos como aconteceu, o que o levou
realmente a retirar-se da politica?\u201d; \u201csim, queremos saber sobre a estória do
assassinato na piscina\u201d acrescenta o tal vestido de polícia ao seu lado.\u201d E o
político faz uma careta, mas levanta-se, vai aproximando-se da plateia, e ai se
senta, entre o público. Através do microfone de uma dessa pessoa, continua o
seu discurso. \u201cEnfim, no final, ninguém sabe quem foi o atirador, quem foi
artista, perdi muitos amigos, mas recebi também o apoio de outros que não
conhecia. Com a ajuda de alguns deles iniciei uma nova etapa na minha vida,
alguém tratou da minha vingança, não precisei de sujar as mãos\u2026 No final,
acabei fazendo alianças com velhos inimigos\u2026 Juntos, duma maneira recreativa,
acabamos por criam novos termos para defender as mesmas velhas ideologias. E eu
estava farto de tudo, tudo ia dar ao mesmo, era impossível escapar. Então
decidi-me finalmente, a dedicar
-me apenas família, esposa e
aos filhos. Precisava de curar as cicatrizes dos meus filhos. As cicatrizes que
o público fez neles. Mas a minha esposa estava mais interessada noutra coisa,
mais propriamente em aumentar a sua colecção de carros desportivos clássicos,
mas ela nem conduzia, pagava para ser conduzida. Então fiz-me amigo do motorista.
Ficamos grandes amigos. Passei a viver mais na casa dele que na minha.
Discutíamos matérias triviais. Ao ponto que tinha chegado, não acreditava mais
na democracia, actualmente sou ainda da opinião que a democracia nunca existiu
verdadeiramente. Bem\u2026 na verdade, cheguei a um ponto que só me queria divertir.
Após um período de deriva, entrei na televisão, conheci essa senhora que era
modelo, e foi ela que acabou comigo. Por causa dela vi-me obrigado a abandonar
o país. Os jornais diziam que o senhor ministro tinha roubado não sei quantos
milhões dos cofres do estado, e mais não sei que\u2026 tudo calunias\u2026 assim, meti-me
numa clínica particular e fiz um certo tipo de cirurgia. Já nesse novo país do
'mundo em desenvolvimento', estava agora trabalhando num novo tipo expressão,
identidade e ideologia. Meti-me num cargo ligado ao negócio dos cosméticos e
ofereceram-me uma mansão, um palácio rural, na encosta de uma colina, mas eu
não estava bem\u2026 Fui tratado por psicanalistas\u2026 acabaram por dizer que o meu
problema era meramente sexual\u2026 Junto minha residencia havia outras mansões\u2026
Por ali habitavam todo o tipo de novos-ricos, para por a coisa em curtos
termos, vou-lhe dizer: militaristas religiosos new-wave, industriais de
empresas virtuais, milionários da pornografia\u2026 isso, eles faziam festas
holiodescas, feitiçaria\u2026 Fui destabilizado por essas pessoas\u2026 acabei iniciando
uma dieta que consistia apenas em escargots, repolhos, cenouras e cebolas
rosadas, e foi assim que morri, fui abduzido, desapareci de cena.\u201d

***











Dentro da cozinha, um telefone toca, o
cozinheiro a princípio deixa tocar, está com as mãos na massa e agora não pode
atender, mas o trrrrim-trrrim continua, então ele levanta a cabeça, inspecciona
os seus únicos clientes, o casal comendo bolos de abóbora, e os garotos debaixo
da mesa, limpa as mãos a um pano ensebado e dá um trago numa garrafa plástica
com um líquido amarelo-escura, o telefone pára de tocar. Mas ele decide-se a
ligar para o mesmo número de volta. Toca uma, duas, três vezes e alguém atende,
há um silêncio, uma respiração: "Sim", ele diz, do outro lado uma voz
feminina trémula diz assim: "Serafins, presta atenção, eu preciso de
você... Serafim você está me ouvindo... eu sei que você está aí... por favor,
venha agora!! \u201d; \u201cOlá! Que é isso? Estou falando com quem? "; "Não
importa, Serafim, por favor me responda a esta questão, você acredita em
amor"; \u201cSe eu acredito no amor?!\u201d \u201cSim, diga-me, sim ou não\u201d, \u201cNaaa, eu
não acredito nisso, mas quem é você\u201d; \u201cdeixe pra lá Serafim... xauu... uma boa
noite Serafim..."


PENSO QUE PENSO

Sim, penso que penso, e volto a
pensar. Eu acho que você também pensa assim. E tudo uma ilusão. Todos nós
estamos pensando sobre isso e aquilo. Mais precisamente, pensando em planos
incontáveis \u200b\u200bpara enganar o mundo do pensamento. Então dou mais umas baforadas
fortes na coisa e jogo fora. Novamente, não sei quem sou. Mas também não quero.
O problema é que posso precisar de um guia. Alguém com um senso de humor
assustador, ou seja, um fugitivo ainda capaz de fazer cálculos... Alguém que
goste de dançar quando se trata de cenas sujas... Sim, deixem-me amar esse lado
perverso da vida, deixem-me sonhar com campos de lama e papoilas plásticas a
perder de vista.

***

Assim, chegados a
esse ponto, já se vendou quase tudo, mas ainda tenho esta garrafa de vinho e
uma buzina esquisita. Uma confidência. A alcunha do meu avô materno era \u201co
lindinho\u201d. O coitado criava bois, mas morreu em um acidente de mota. Roda
dianteira contra roda dianteira. Pela noite fora. Chocou contra outra motorizada. Ambos sem
luz. Ambos borrachos. Um vinha da festa, o outro ia para a festa. Ou seja,
quando uma pessoa começa a proclamar coisas deste género, é preciso ter atenção
para não sujar a casaca... Com os rumores que circulam em épocas como esta, até
os animais podem ser encontrados encolhidos contra a parede, assustados pela
sua própria sombra desproporcional e instintos desconhecidos.

***

Mas meu cinismo,
aparentemente, é superficial, porque na verdade acredito que o sistema é um e
que não há falhas. Todas as acções são perfeitas e se Deus é macabro, somos a
raiz cúbica do desejo. Seja por actos, palavras ou símbolos publicitários.
Portanto, a crise existe porque o homem não pode viver apenas dos sonhos,
precisamos ter alguma verdade... E sim, podemos precisar do delirante para
transcender a dualidade das coisas, mas também, eu aconselho você, não fique
muito tempo no meio do caminho, que pode lhe trazer alguns mal-entendidos, você
pode acabar sendo isca para soldados de chumbo, eles podem sequestrá-lo e
levá-lo ao tribunal para explorar todos os seus sentimentos reprimidos.

***

Você pode dizer, s
vezes me sinto tão cheio de toda essa merda. Você escapou tantas vezes. Agora
você sabe, desaparecer para onde? Eles dizem que em todos os lugares é o mesmo
e isso é meio verdade, mas não totalmente. Os problemas das pessoas também são
iguais. De fato, as pessoas criam problemas para se divertir resolvendo esses
mesmos problemas. Bem, meu problema, seu problema, notei, é colocar os pés nas
mãos quando se trata de vender o peixe... Podemos dizer, uma vez drogado,
drogado para a vida toda... Sim, Dona Antónia pode dizer, o mundo acaba de se
tornar um enorme terreno baldio ao ar livre, cheio de areia queimada,
estilhaços e vermes enigmáticos, vagando pelas válvulas de corações
desgrenhados, atrofiados pela impaciência e ansiedade lunares e pelo
protagonismo da mídia ...

***

Nós todos rodopiando
sobre um chão espinhoso e mofado, ejaculando fluidos anacrónicos em várias
direcções e sentidos... Fluidos que podem corromper tanto a vontade sagrada de
entendimento como os ossos do oficio... mas não será nada... relaxe... fique
calmo\u2026 assim como eles cantam, você pode dançar... podemos continuar com o
pequeno teatro... não há necessidade de forçá-lo porque o radiador radiante
embutido dessa ligação oculta cuidará de absorver apenas o necessário para
fazer a potencialização de nossa fortuna e amor. As pessoas sempre foram
forçadas a esperar? Por isso inventaram o tabaco? Bem... estou começando a me
cansar de monólogos, é melhor tentar me comunicar seriamente...

***

Então, eu me aproximo
de algumas dessas pessoas e tento entrar em conversas. Começo
perguntando coisas como "quem é você"; "De onde você é";
"onde você vai"; "o que o traz aqui", as respostas que recebo
são ambíguas, algumas até obtusas, outras mais mundanas. A coisa é. Todos
desconfiamos de todos. Fraternidade é apenas pretensão. Todos desconfiamos de
tudo. Todos nós nos matamos com a ideia de ter um futuro. Tudo atolado em um
mundo virtual azul. Passeando com os cachorros pelo lago, comendo guloseimas
narcóticas no caminho. Todo sofrimento de uma crise hipotética. E a montanha
que já deu luz eu não sei quantos ratos e outros clichés...

***

Portanto, o que está
além desta árvore genética, o que está além deste corpo sintético, o que está
além desta avenida, que está além desta toponímia, que está além deste céu
equidistante, cheio de terríveis equações matemáticas, cadelas loucas e
radiações promíscuas... você pode tirar vantagem de toda essa agitação... já
pulando na avenida onde essas máquinas estão em fila com os motores em câmara
lenta, podemos assistir os motoristas e eles podem nos assistir, talvez
pensando que você veio limpar o pára-brisas, mas não, Eu vim te foder, vim para
apagar seu significado, vim cheirar sua gasolina, cala a boca e vai embora da
minha vista.

***











Agora pense em todas
essas árvores que envelhecem e deixam cair sua folhagem e frutas em bancos
abandonados, e as almas que flutuam em busca de alguém para lhes massajar os tornozelos.
Eu fecho meus olhos, minha senhora, em breve você verá o pânico se tornando
menta... você sabe\u2026

PESSOAS NORMAIS COMO TU

As tantas, os
fedelhos desapareceram, deixei ficar a bóia para trás e apanhei boleia com um
camionista numa estrada secundária. O camionista chamava-se Albano, era
columbófilo e transportava um carregamento de fruta dum pais quente para um
pais frio, como seria de esperar, mas Albano não gostava muito de falar por
isso pus-me a ler o jornal que se encontrava no porta-luvas do camião. Havia
vários slogans com os seguintes dizeres:
\u201cHomem testemunha de
Jeová castrou namorado da filha\u201d; \u201cTerá assassinado a sua esposa com uma pá\u201d;
\u201cOferecia cirurgias estéticas no facebook e depois
violava mulheres\u201d; \u201cSequestrado por ladrões que se esconderam na casa de
banho\u201d\u2026 e agora lendo em voz alta, \u201cDois assaltantes agrediram e sequestraram
um homem numa casa de banho anexa casa que pertenceu aos seus pais, na Póvoa
da Isenta. Joaquim Bonifácio, de 68 anos, contou ao nosso jornal que deu pela
presença dos larápios pelas 10h30, quando andava a tratar das galinhas. Ao
empurrar a porta, foi subitamente atacado pela dupla\u2026. \u201cum deles molhou um pano
com um líquido e tapou-me o nariz, enquanto o outro me agarrava\u201d, recordou.
Apesar de ter oferecido resistência, os ladrões conseguiram amarrar-lhe os pés
e as mãos atrás das costas, colocando-lhe um collant de vidro na boca e uma toalha
em cima da cabeça. De seguida, roubaram-lhe as chaves da sua casa, que ficava
no terreno ao lado, e revolveram-lhe todas as divisões, possivelmente procura
de dinheiro\u2026. Acabaram por fugir apenas com umas moedas comemorativas de prata,
que tinham mais valor sentimental do que valor real. Mesmo amarrado, o senhor
Bonifácio conseguiu pôr-se de pé e caminhar devagarinho até ao portão, onde foi
encontrado pelo padeiro, cerca de 20 minutos depois de ter sido sequestrado.
Naquele momento, a esposa não se encontrava em casa. \u201cAgora desconfio de tudo e
de todos\u201d, afirmou Joaquim Bonifácio, confessando-se \u201crevoltado com o estado a
que isto chegou\u201d\u2026

***

Vou agora no metro comprimido contra
as massas, tento acomodar-me. Passei a tarde nisto. A sair aleatoriamente em
estações, a entrar nos primeiras portas que se abrem, tento seguir uma ordem
natural das coisas, movendo-me apressadamente no meio das massas, metendo pelos
intermináveis túneis que fazem a união dumas linhas para as outras. Observo as
pessoas e o seu mutismo ou pequenas excentricidades. Observando os placares de
publicidade, tentando simbolizar, seguir pistas, seguir sempre em marcha
aceleradamente em direcção a destinos assinalados. Trespasso da circle line,
para a hammerstith & city line, depois da Bakerloo line, para a linha azul
escura, a picadilly line, e depois da azul escura para a azul clara, a vitoria
line, e por ai fora\u2026 passando do metro para o DLR, a Docklands Light Railway, que mina a zona do rio, saltando depois do DLR
para o overground, e do overground para o comboio de grandes distancias e
quando dou por mim estou já a caminho do aeroporto de Luton, e deixo-me ir,
entro pelo aeroporto a dentro, olho para a grande tabela das partidas e
curiosamente, o próximo voo é para Las Palmas, Gran Canaria, fico a pensar
naquilo, será que é para ai que devo seguir? Tentei ainda infiltrar-me
sorrateiramente na porta dos embarques, mas não tive grande sucesso, fui
barrado pelos seguranças, por isso voltei para trás, saí rua, corri para a zona
verde na parte de trás do aeroporto, junto s pistas de aterragem, e do lado de
fora do paredão, fiquei a dizer adeus ao avião que levantava voo com destino a
Las Palmas.

Depois
voltei de novo para a plataforma do comboio, e do comboio passei para o
overground, do overground voltei ao metro e aqui vou eu novamente agarrado ao
varão como uma bailarina de bar de alterne, olhando as movediças imagens
publicitarias que se misturam com os placares dos filmes de ficção cientifica a
estrear nos próximos dias, ou as novas fragrâncias de perfumes que hão-de dar
um poder de sedução toxicómano aos seus utilizadores, e a minha mão besuntada
tocando outras mãos no varão gordurento, mãos de uma serie de cidadãos comuns,
que acabaram há pouco os seus trabalhos e voltam agora para casa neste
transporte de carne trepidante. Mas cidadãos comuns porquê? E não é sabido que
somos todos uns estranhos? Estranhos uns aos outros? Sei lá se eles, se vocês,
voltam dos trabalhos ou para onde é que nos dirigimos agora. Cada um com as
suas manias, cada um com os seus segredos, traumas, inclinações e caprichos.
Ponho-me a olhar para eles, para vocês, para nós, humanóides, tentando
adivinhar o que cada um faz na sua vidinha pelas suas expressões, movimentos ou
contenções.

Por
vezes os corpos tocam-se e quando isso acontece expomo-nos um pouco mais, e é
nesse expor que se pode revelar muita coisa. Mas a esta hora estou já cansado,
depois de ter passado a tarde toda a ser constantemente pressionado contra
portas, a subir escadas, a descer escadas, a correr em túneis que não me
levaram a lado nenhum, a perseguir sinais que me fizeram voltar ao ponto de
partida, já não quero saber se este é advogado ou malandro, se aquela limpa a
merda dos outros ou apenas a sua própria merda, se o outro toca trombone ou
tambor ou se aquelas duas usam ou não cuecas de embalar. Fecho os olhos e
decido-me a esquecer a humanidade, já não quero ver ninguém. Deixo-me apenas
ir, sou apenas mais um monte de carne e ossos que a qualquer momento se pode
desintegrar. Respiro fundo tentando aliviar a minha náusea e durante alguns
segundos faz-se um silêncio brutal, apesar da carruagem se encontrar cheia de
bocas, dentes, cérebros, cús, pilas, conas, mamas, intestinos, figadeiras, etc,
tudo coisas ruidosas, cada um vai estarrecido com os seus aparelhometros
portáteis em silêncio, e o único som que se ouve é o da travagem para parar na
próxima estação, pessoas mudas saem, pessoas mudas entram e siga a marcha\u2026 até
que a certa altura adormeço de pé.
Quando acordo, começo a ouvir uma espécie de gemido
ou grito contido, abro logo os olhos mas não consigo identificar bem de onde é
que vem tal coisa porque a carruagem vai pinha, pessoas movem-se para cá e
para lá junto s portas tentando evitar o contacto e uma lufada de ar fresco
entra na carruagem vinda do fundo, fazendo despertar as ideias e alegrando um
pouco o espírito\u2026 depois volto a ouvir o tal lamento ou lengalenga que tinha
ouvido antes e fica a confirmação que não era mesmo imaginação minha: um homem
vestido com não sei quantas casacas umas por cima das outras aproxima-se do
meio da carruagem onde eu me encontro, as pessoas abordo arredando-se para o
deixar passar, fingindo que não o vêem e ele continua a sua investida, movendo
lentamente os membros e garganta. Trata-se um homem com uma cara muito magra,
preenchidas de algumas cicatrizes e grandes olheiras; duas grossas
circunferências negras a rodear-lhe os olhos. E s tantas
depois de bufar não
sei o quê volta a abrir muito a boca de dentes enegrecidos para dizer assim
"Ladies and gentlmans I have a question not a dream", diz num tom
misto de desespero, loucura e charlatanice, algumas pessoas demonstram franca
repulsa outras nem se mexem, ou desviam os olhares.
"Ladies and gentlmans, my question is abou la décadence? What you
know about it?\u201d continua o espertalhão.
\u201cQuoi ce la
decadence monsignors et madames?\u201d diz o gajo num francês de cortar a
respiração. Algumas pessoas mostram-se visivelmente incomodadas, outras esboçam
um certo sorriso pelo canto da boca, mas ninguém comenta. De certeza que muita
gente entende francês aqui, não deve ser por isso. "Et toi, madmoselle,
quoi qui tu pense qui est ce la décadence?" diz aproximando-se duma
senhorata nos seus vinte e poucos anos, de saia clássica pelo joelho e óculos
de contabilidade. \u201cBack off\u201d responde a mulher chegando-se para trás uma certa
expressão de nojo e indignação. "Dont worry, miss, je ne va faire mal a
quelqueune, je suis soulemante one povre homme avec la

necessite du comprend quoi ce la decadence!
Is it in the individuality? Is it in the world?" ;
b Shut up ! You fucking prick\u00bb, atira um homem de meia-idade vestido
com um fato de treino duma marca conhecida. b This is a free country and I
have the right to ask, qui est ce la décadence?"; "La decadance ce la
merde" alguém grita lá do fundo da carruagem ao mesmo tempo que o metro
abranda e pára numa nova estação. Metade das pessoas saem ali, quase ninguém
entra, e eu fico frente a frente com o tal personagem da decadência.


"Il n'y a pas de décadence dans l'univers, tout est parfait, la
création et la destruction sont la même chose", digo-lhe eu no meu francês
barateiro aprendido na racolta da uva. O homem encara-me e é como se os seus
olhos ganhassem nova vida, \u201cce pas possibible\u201d, insiste o charlatão, o fogo
parece que ardia nos seus olhos, \u201coui ce possible, dans la merde grandit le
melhor champignon\u201d, diz-lhe o outro no fundo da carruagem \u201cma je parle pas de
la merde, je parle pás de la merde je parle pás de la mer\u2026 je parle de la
decadance.\u201d Insiste o bicho agora já como que muito chateado, mas afastando-se
de mim e indo na direcção do outro. E nisto o metro volta a parar, as portas
abrem e eu a trepar pela escadaria rolante acima e quando chego s portas
automáticas onde é preciso enfiar o bilhete para sair, lá tinha os bofias da
Transport-for-London minha espera. Não tive hipótese. \u201cCe ça la decadence\u201d,
pois é. Levaram-me para a esquadra, fizeram-me uma serie de perguntas sobre a
minha identidade, onde tinha andado, o que fazia por ali, e a coisas
complicou-se porque não tinha um comprovativo de morada\u2026 e os cabrões
enfiaram-me logo nas máquinas\u2026 fotografaram-me de vários ângulos, tiraram-me as
impressões digitais, e fizeram-me ainda assinar umas declarações sobre como não
repetiria a façanha, e pronto lá acabaram por me fechar umas horas numa cela
fria-fria-fria, com uma cama de betão, de formato enviesado, ou seja, uma
pessoa deitava-se e o corpo acabava sempre por escorregar, sendo desse modo
impossível dormir. Então, acabei por passar o resto do tempo todo de pé a andar
para cá e para lá naquela estúpida cela, a pensar na vida, nas coisas que já
tinham acontecido nesta viajem, nos malucos que uma pessoas encontra, e veio-me
mente essa afirmação que há muito escutara não sei onde, \u201cnão penses que és
assim tão maluco, por vais sempre encontrar um maluco mais maluco do que tu\u201d\u2026 E
com o tempo comecei a ficar cansado de estar ali\u2026 Comecei a ficar melancólico e
s tantas\u2026 pus-me a cantar umas quadras que costumo cantar quando ando por ai a
caminhar no meio do nada em certos territórios desolados\u2026

***

O
sol já vai alto e entra, crivado pelos buracos das persianas, naquele quarto,
produzindo rendilhados de luz no amontoado de carne estendida sobre o leito.
Seis presuntos e uma cabeça, os presuntos são das três damas que salvaram, na
noite anterior, o nosso herói das garras dos pauliteiros, e ai está ele já
levantando o arcabouço e olhando em redor deste quarto estranho, seu nariz um
pouco amassado, um olho negro e cordas ao fundo dos pés. Tenta desembaraçar-se
com a melhor destreza possível dos membros das meninas, devagar para não as
acordar, mas não vai a lado nenhum, elas apenas fingem que dormem, e
agarram-no, pelo cabelo, pelo pescoço, pela cintura, pelos tomates, outra
crava-lhe as unhas nas costas, não se fazem rogadas e avassalam o nosso herói.
Ele aguenta tudo e consegue sair dali com dinheiro. As tantas já está dentro de
uma tasca na parte velha da cidade, sentado a uma mesa dos fundos a soerguer um
prato de sopa. Nariz ainda um pouco amassado. Cabelo destrambelhado. \u201cTzzzzzt\u201d, uma mosca acaba de ser assada nas lâmpadas de
halogéneo. Ao balcão três
velhotes discutem política, sociedade e economia. Um deles tem cara larga,
nariz batatudo e grandes sobrancelhas. O outro, cabeça completamente redonda e
pintelhos nos ouvidos. O terceiro nariz de papagaio e queixo com ponto de
interrogação. No balcão, em frente de cada um deles, um copo de tintol. \u201cSão
todos uns cães, querem é tacho\u201d; \u201ccães e cadelas\u201d; \u201cse fosse como antigamente,
eram logo engavetados e atirados ao mar\u201d; \u201cfartam-se de passear em jactos
particulares e depois dizem que está crise\u201d; \u201chá-de vir uma bomba atómica e
tudo acaba\u201d; \u201cputa que os pariu a todos\u201d; \u201cdeus não dorme, conforme se toca
assim se há-de dançar\u201d; \u201cmandaram vir os sacos de dinheiro lá e fora para fazer
auto-estradas e mais auto-estradas, agora que desmontem tudo e mandem o
alcatrão de volta\u201d; \u201candam ai armados em bons com grandes carros mas isto vai
levar uma grande volta\u201d; \u201cacabaram com o povo, agora dizem que é tudo classe
media, já ninguém quer saber da agricultura, mas a árvore do dinheiro ainda não
inventaram\u201d; \u201cé uma pouco vergonha\u201d; \u201ccada um rouba como pode\u201d; \u201cmas o amigo se
lá estivesse se calhar fazia o mesmo\u201d; \u201cé o salve-se quem puder\u201d; \u201ceu já
comprei uma bóia, estou prevenido\u201d; \u201cpela boca morre o peixe\u201d; \u201ctanto morre o
peixe como o leão\u201d; \u201caté o circo está em crise\u201d; \u201cmas não faltam palhacitos\u201d;
\u201ceu cá prefiro a bola\u201d. Atrás do balcão uma mulher nos seus trinta anos, nem
bonita nem feia, com um pouco de buço nos cantos da boca olha a pequena
televisão no lado oposto da sala enquanto lava copos e chávenas. \u201cVocês não
estão a perceber o artista que este homem é\u201d, diz com entusiasmo o apresentador
televisivo de um programa da tarde, \u201cacima de tudo aborda um tema que de
maneira geral nos interessa a todos\u201d, os velhotes olham também o pequeno
televisor, a plateia bate palmas, e o homem que tem um tema que interessa a
todos entra em palco sem mostrar qualquer sinal de emoção para as câmaras,
senta-se no sofá e mete as mãos nos bolsos. \u201cBoa tarde João, obrigado por teres
vindo, é uma honra para nós ter-te aqui hoje\u201d, \u201csim já me tinhas dito isso lá
dentro nos bastidores, escusas de te estar sempre a repetir, além disso penso
que não estas a ser completamente verdadeiro\u201d, remata o entrevistado. \u201cRepito e
volto a repetir, é uma grandíssima honra ter-te aqui esta tarde, e digo isto do
fundo do meu coração, podes crer\u201d. \u201cNão creio em ti nem nesse público
contratado para bater palmas, mas vá avança lá com a entrevista que tenho mais
que fazer\u201d. O nosso herói já acabou de comer a sopa e está agora a olhar para o
fundo do prato. A empregada repara nele, olhando intervaladamente para a loiça
que está a lavar, para Xavier e para o televisor. Até que decide-se a limpar as
mãos e vai levantar o prato mesa de Xavier, olham-se os dois de frente, \u201cquer
mais alguma coisa\u201d, pergunta, \u201csim queria fazer-lhe uma pergunta\u201d, \u201cse eu
souber\u201d, \u201ca menina gosta de tango?\u201d, \u201cessa agora...\u201d.

***

Não muito longe dali,
numa pequena cidade de província, uma cave preenchida por pilhas de jornais,
eximias torres de babel que sobem quase até tocar o tecto manchado pela
humidade, um estreito corredor de três palmos a fazer a travessia da porta até
cama de ferro onde se encontra o nosso personagem \u2013 Albino \u2013 Estendido no seu
ninho, de papo para o ar, a ler um jornal com noticias perdidas no tempo,
alienado de tudo e todos e ao mesmo tempo no centro do mundo. Na cabeceira da
cama estão as suas muletas, particularmente decoradas com autocolantes dos
cromos do futebol. Sim, Albino é um homem entravado, e só sai deste quarto
quando o rei faz anos. Mas reis há muitos, e há quem festeje os seus
obituários. E ao contrário do que possam pensar, Albino não está completamente
só neste mundo, para além das suas peculiares fantasias tem como companheiro
omnipresente Gisela, um bonito papagaio (se é fêmea ou macho não se sabe) que
anda por ali a esvoaçar por cima das pilhas dos jornais, cagando nesta e
naquela noticia, o que para Albino parece não ser grande transtorno. Mais
adianto, que este seu amigo, ou amiga, é uma criatura bastante culta, sabe
dizer uma serie de palavras com mais de três sílabas, o nome esquisito de
certos jogadores de futebol e até de certas personagens da historia e da
literatura. Dona Arminda, a viúva proprietária do anexo, ali vem uma ou duas
vezes por mês para ver se o homem ainda está vivo ou para o abastecer de
enlatados, mas não entra, fala-lhe da porta, ou seja deixa os enlatados numa
caixa, na parte de fora. Em tempos Albino trabalhou para o falecido marido de
dona Arminda, era resineiro, andava de pinhal em pinhal a colher a seiva do
pinho, mas veio um dia que teve um azar, caio num barroco e ficou avariado das
pernas, sem família que o pudesse ajudar, nem casa própria, pois já na altura
era costume pernoitar sabe-se lá onde, o antigo patrão teve pena do homem, que
era um pobre diabo, apesar de muito borrachão e um pouco valdevinas, vendeu o
porco que tinha em casa, ou porca, esvaziou o curral e fez-se um quarto
improvisado para Albino. A princípio dona Arminda não gostou muito da ideia,
iria deixar de ter presunto fresco na salgadeira, chouriças no defumadouro, e
causava-lhe uma certa impressão ter um aleijado ali fechado no anexo onde antes
estivera o seu estimado porco. As meninas da segurança social foram chamadas ao
local, tentou-se arranjar um subsídio de invalidez criatura, mas como Albino
era um homem sem qualquer tipo de documentos de identificação, e assim insistia
em permanecer, não se conseguiu arranjar o pretendido tacho governamental. Os
anos passaram e Albino foi vivendo da caridade que algumas almas da aldeia lhe
devotavam. As pessoas tinham estima no pobre coitado, lembravam-se das suas
tiradas cómicas e do palavreado caro e misterioso que costumava usar nas
tavernas da zona em noites de borracheira. De resto quando não estava borracho
era um homem calado, metido consigo próprio e sempre a atalhar pelos matagais
das redondezas, dizia-se que fora criado por pastores. Mas desde o dia que
ficara invalido, deixou de aparecer nos escaparates da aldeia, mesmo de muletas
era-lhe muito difícil conseguir movimentar-se, e como a avaria era nos dois
pés, não conseguia suportar o corpo, perdera o equilíbrio, e para ir a algum
lado, a menos que alguém lhe pegasse, tinha de arrastar-se ou apoiar-se nas
muletas como se estas fossem andas. Dada a situação, Albino passava os dias no
antigo curral, lendo jornais, revistas e livros que por vezes uns senhores da
cidade, antigos caseiros lá do sítio lhe traziam, porque sabiam que Albino
estimava a leitura. Para além da leitura Albino ouvia muito a rádio. Escutava o
relato de todos os jogos de futebol, quer fossem clubes distritais quer fossem
nacionais e sabia uma serie de coisas sobre a táctica de jogo e as
características dos jogadores das suas equipas favoritas. Isso fazia com que
tivesse visitas quase diárias dos putos da aldeia com quem trocava cromos e
discutia resultados. Mas chegou o dia que se fartou do mundinho futebolístico,
não mais ouvira os relatos, não mais falara sobre bola com os putos, não mais
aceitara os seus cromos ou os deixara entrar no seu refúgio. Tinha mudado as
suas preferências radiofónicas, desde então passara a ouvir música sinfónica.
Também deixou de comer broa de milho. Atum, sardinha em molho picante, caras de
bacalhau em azeite, polvo em óleo vegetal, lulas em tinta-da-china, macedónia,
grão-de-bico, feijão ciclista, azeitonas pretas, salsichas tipo Frankfurt,
ananás em calda, leite-creme e água das pedras. A noite já vai alta e o
garrafão está quase no fundo, e depois de tanta leitura Albino deixa fechar os
olhos, as mãos já não são mãos para pegar em coisas e o jornal cai sobre a sua
cara, aberto, as folhas trepidando com a respiração forte, o ressonar. Na capa
do jornal estão meninas de casaca curta. E dada a impossibilidade de descrever
a sua face, pela camuflagem jornalística, vamos em alternativa descrever o seu
corpo nu. Comecemos pelos pés. São uns pés gordos, como certas batatas acabadas
de sair da terra, um buraco no sitio dos tornozelos e talvez falte um ou outro
dedo. Unhas encavalitadas que parecem querer falar. As canelas revelam-se
frágeis e um pouco obscurecidas ou até esverdeadas. Os joelhos são dois cepos
de sapiência. Coxas raquíticas, quase sem músculo, mas de uma branquidão
requintada. Os testículos lambidos fazem talvez lembrar dois grandes rins com
pele casca de laranja. Já o prepúcio particularmente longo da sua pichota,
dá-lhe um estranho ar de papa-formigas. Um pouco de barriga, não muito proeminente
pois o facto de estar deitado favorece-o. Umbigo saído para fora. Provavelmente
do signo virgem. Para quem acredita nessas coisas. Peito cabeludo. Braços
musculados com uma ancora tatuada no membro esquerdo. \u201cOtorrinolaringologista\u201d,
ensaia a sua amiga pousada na trave de ferro cabeceira da cama, \u201cbácora\u201d,
responde Albino ao mesmo tempo que ressona, palavra puxa palavra, \u201cpederasta\u201d,
insiste Gisela não se sabe se com ou sem conhecimento de causa, \u201cxula\u201d, retalia
o sonâmbulo com rouquidão, \u201cIgnóbil\u201d, remata a passara com cacarejares
comemorativos.

***

Nessa
mesma noite,
num
sonâmbulo bairro de subúrbio de quarto ou quinto grau, aquilo a que se costuma
chamar - o dormitório duma cidade - encontra-se mais um caso de desadaptação -
Olga - vira-se e revira-se na sua cama, ajeita a almofada, suspira e volta a
virar-se para o outro lado, de barriga para cima, de barriga para baixo, de
barriga para dentro, de barriga para fora e nada. A barca do sono não a leva.
Entretanto lá fora ouvem-se pneus a chiar, e é nesse instante que Olga
aproveita para se levantar, em camisa de dormir dirige-se janela. Espreita a
noite, lá fora tudo calmo, não se vê vivalma, apenas alguns sacos plásticos a
flutuar, arrastados por um vento sonâmbulo. Fecha novamente os cortinados e
dirige-se depois para a cozinha. Abre a porta do frigorífico e fica a olhar lá
para dentro, parece namorar uma tarde de chocolate, enterra-lhe o dedo, chupa-o
e volta a fechar a porta do frigorífico. Vira-lhe costas e senta-se
literalmente na mesa da cozinha. Ajeita o ramalhete de flores plásticas sobre a
mesa, cheira-as e sem querer atira com uma faca que está junto s suas nádegas
para o chão. Assusta-se. Com o lábio
inferior ligeiramente saído, suspira na direcção do cabelo sobre a testa.
Levanta a cabeça e olha fixamente durante algum tempo o relógio na parede da
cozinha, um relógio padrão pele de vaca, quem sabe foi uma oferta com a
acumulação de pontos na compra de uma qualquer marca de leite. Gordo?
Meio-gordo? Magro? Obeso? A nossa heroína suspira novamente, \u201cestou fartinha de
te ouvir oh Cornélia, olha vai chatear o buda\u201d diz e logo sobe acima da mesa,
estica-se, retira a pilha ao relógio e vai deposita-la na sanita. Depois volta cozinha. Volta ao frigorífico.
E volta casa de banho outra vez. Debruçada sobre a sanita, a nossa heroína
cospe caroços de cereja e bebe champanhe. Enquanto o depósito do autoclismo
enche, ouve-se uma espécie valsa mecânica produzida por um piano de corda
ligado roldana do mecanismo sanitário. Olga aproveita para dar uns passos de
dança em frente ao espelho, estuda a sua pessoa, faz beicinho, engelha a testa,
finge-se contente, finge-se triste, finge-se surpreendida, finge-se
amedrontada, agarra os seios e puxa-os para cima, levanta também o queixo e faz
cara de má, depois deixa-os cair, flácidos e volta a ser ela própria. Enquanto
a banheira enche pinta os lábios de vermelho vivo e as covas dos olhos de
negro, e talvez assim se sinta mais profunda. Agarra na garrafa e dá mais umas
goladas. Volta a cuspir caroços de cereja na sanita, volta a puxar o
autoclismo, e voltamos a ouvir a mesma valsa mecânica infantil. Vai buscar o
telefone, a respectiva lista telefónica e enfia-se dentro da banheira,
lentamente, sem tirar a camisa de dormir. Só os braços e cabeça ficam de fora.
Qual caracoleta, fecha os olhos durante uns segundos, depois volta a pegar na
lista telefónica e vai desfolhando, como quem desfolha milho. Os caroços que
acaba de cuspir ficam a boiar na espuma. No concelho de Cantanhede: Os Santos.
Os Sequeira. Os Silva. Os Simões. Os Tavares: Alberto Carvalho; Alberto Silva;
Ana Isabel Brandão; António A. Almeida; António F. Fernandes; António J.
Quaresma; António M. Quaresma; Armando L. Silva; Arménio Anjos: Vale de
Marmeleiro - Coja. 2-3-5-7-2-1-8-9-8. Toca uma, duas, três vezes... - a mão de
Olga treme ligeiramente \u2013 toca sete vezes e ninguém atende. Mais um gole de
champanhe e volta marcar o mesmo número. Insistente. \u201cMas isto são horas para
se ligar para casa das pessoas\u201d, diz um homem de voz rouca, \u201cboa noite Arménio,
aqui é a amiga Olga, estou a fazer um estudo, não leve a mal, gostaria de saber
se acreditas no amor\u201d; \u201cora vá borda-merda e deixe dormir quem
trabalha...(piiiii)\u201d. Concelho
da Mealhada: Os Machado. Os Marques. Os Matos. Os Melo: Adérito Pinto; Adriano
Cristina; Albano S. Matos; Albertino J. Correia; Alberto Marques. Alcides
Martins: Lameira de São Pedro \u2013 Luso. 2-3-1-9-3-9-3-2-6. Toca uma, duas, três
vezes, \u201cCamila és tu?\u201d; \u201cnão sou a Olga, reconheces-me Alcides?\u201d; \u201cnão estou a
perceber!\u201d; \u201cestavas a dormir?\u201d; \u201cmas qual Olga?\u201d; \u201ca amiga Olga!\u201d, \u201cestá a
gozar comigo?\u201d; \u201cnão Alcides, não estou a gozar contigo, só queria saber se
acreditas no amor?\u201d; \u201cse acredito no amor\u201d; \u201csim, isso\u201d; \u201ceu sei lá, acredito
no amor de mãe\u201d; \u201csó isso, é uma pena Alcides, xau, dorme bem\u201d. Mais um gole de
champanhe e a garrafa chega ao fim, deixa-a afundar-se na água espumosa. Volta
a pegar na lista telefónica, folheia mais umas quantas páginas aleatoriamente
até chegar ao concelho de Oliveira do Hospital: Os Pereira. Os Pinto. Os
Ribeiro: Albano Cardoso; Amadeu Reis; Américo Santos; Aníbal Pinto: Vilela \u2013
Nogueira do Cravo. 2-3-8-6-7-6-2-6-4. Toca uma vez, dez vezes e nada. Põe agora
o dedo em cima do número do Serafim Garcia de Travanca de Lagos. Marca:
2-3-8-6-4-6-7-5-6. Atendem logo mas ninguém fala, pressentem-se as respirações
de um e do outro lado, até que, \u201cSerafim, preciso da tua ajuda... Serafim
estás-me a ouvir... sei que estás ai...\u201d; \u201cestou a falar com quem?\u201d diz
finalmente uma voz algo tremula do outro lado; \u201cnão interessa, por favor diz-me
se acreditas no amor\u201d; \u201cacredito claro, essa agora!\u201d; \u201ce podes dizer que me
amas?\u201d; \u201ce porque não!\u201d; \u201centão diz\u201d; \u201cAmo-te!! está bom assim?\u201d; \u201camas-me
Serafim, mas... nem me conheces...\u201d; \u201cnão foi a senhora que pediu para dizer
que te amava?\u201d; \u201cfui mas, obrigado por teres dito mas... não me trates por
senhora, eu sou a Olga!\u201d; \u201ca amiga Olga?\u201d; \u201cnão Serafim, apenas a Olga, sofro
de insónias\u201d; \u201cai sim, eu também, e então quer dizer, telefonas para casa das
pessoas pedindo que digam que te amam para combater as insónias?\u201d, \u201cé a
primeira vez que o faço, e tu como fazes\u201d; \u201cnormalmente fico na internet até
tarde\u201d; \u201ce a fazer o quê na internet?\u201d; \u201csei lá, olha, fico a namorar na
internet\u201d; \u201ca namorar pela internet!\u201d; \u201csim, tu não tens internet?\u201d; \u201cnão, não
tenho não... olha Serafim, queres namorar comigo pelo telefone?\u201d

***

Gente empurrando carrinhos de compras,
marchando como se andassem no trânsito da cidade, outros com cestos na mão,
outros ainda com coisas amontoadas nas mãos, até ao queixo, outros em fila
indiana, dirigindo-se para as caixas de pagamento do supermercado. Arroz,
massa, ovos, gilétes, preservativos, vinho, pastilha elástica - são as coisas
que passam pela mão de Olga neste momento - ou melhor, são as compras de um
homem alto, de barba bem feita, gravata e cara sem expressão. \u201cCatorze euros e
cinquenta e cinco cêntimos se faz favor\u201d balbucia Olga. O homem entrega duas
notas e pega o troco. \u201cObrigado e bom natal\u201d, diz Olga; \u201cainda nem chegamos
Páscoa!\u201d responde o homem secamente. A passadeira não pára: couves, pepinos,
tomates, beringelas, cebolas, cenouras, batatas, alho-porro, são as compras de
uma mulher atarracada com um grande sinal no nariz e óculos baços. \u201cMinha
senhora não lhe falta nada?\u201d, a mulher olha para Olga e depois para o chão
talvez para confirmar se não teria deixado cair algumas das compras \u201cnão me
falta nada como assim?\u201d, \u201cestá tudo bem consigo, não lhe falta nada na vida?\u201d,
\u201cora essa, e quem é você para se meter na minha vida?\u201d, \u201cSão dez euros e quinze
cêntimos\u201d. A próxima cliente é uma mulher loura com bastante rímel nos olhos e
uma t-shirt apertadinha com uns lábios vermelhos gigantes com a inscrição \u201cI
will kiss you first\u201d: tomate de conserva, feijão de conserva, ervilhas de
conserva, salsichas de conserva, cotonetes, pensos higiénicos, uma embalagem de
chocolates, leite magro - \u201cSão cinquenta euros e vinte e dois\u201d ; \u201ccinquenta
euros?\u201d ; \u201csim, esse chocolate que escolheu é do mais caro que temos...\u201d ;
\u201cestão deixe estar, faça a conta sem o chocolate\u201d. Olga abre a caixa
registadora, faz umas operações e volta a fechá-la, agarra na embalagem do
chocolate e coloca-a num certo sítio. \u201cAssim fica em vinte cinco euros e três
cêntimos e meio?\u201d ; \u201cTrês cêntimos e meio? Olhe deixe estar, já não quero levar
nada\u201d ; \u201cPeço desculpa minha senhora, ofereço-lhe o chocolate\u2026\u201d

*


Acordo debaixo de um viaduto, algures, o som da passarada selvática
misturado com a rodagem dos automóveis por cima no tabuleiro da ponte
serve de despertador. Outros estranhos como eu estão para ai instalados, cada
um no seu galho. As tantas, já me levantei, já me espreguicei, já me esqueci
donde vim, para onde vou e caminho agora descalço sobre o terreno pedroso com
ervas, pé ante pé. Uma fina cortina de fumo projecta-se docemente ante dos meus
olhos, trata-se da infindável fogueira do nosso acampamento cigano, o seu aroma
pela manha é sempre diferente, gosto de o sentir, e nisto, o radio-a-pilhas
põe-se a anunciar coisas malucas numa língua obscura qualquer, uma voz
raquítica e furibunda, tipo políticos doidos, depois cala-se e volta a emitir
aquele ruído de chuva estática a que já estamos habituados e eu afasto-me em
direcção ao morro do riacho. Nisto, enquanto dou uma mija nas ervas doces,
observo o espectáculo dos patos bravos de rabo-a-abanar, abalando de dentro
daquilo que já foram electrodomésticos imprescindíveis, frigoríficos e fogões
ferrugentos a desintegrarem-se na margem da ribeira, pois é, gosto de ver as
estas ruínas da sociedade a serem comidas pela natureza, é algo que me acalma,
que me preenche, não sei bem porque. Os patos, todos pretos, apenas com manchas
brancas no pescoço, afastam-se ribeira abaixo alegremente enquanto lavo a cara
nestas puríssimas águas, apenas contaminadas uns metros acima e em frente\u2026 na
silveira\u2026 do outro lado do riacho, pássaros, passarões, assobiam cantorias loucas
num tom de provocação, mas não dá para ver nada, podem ser pura imaginação, uma
realidade fictícia concebida para entreter vagabundos e alienados, no entanto
quando eu lhes assobio em tom de imitação eles respondem logo ainda com mais
louvor e musicalidade, e eu insisto com mais bizarrias vociferantes, assobiando
com os dedos na boca como quem chama um cão, assim consigo assusta-los,
fazendo-os levantar voo e convencer-me que são reais. Ok. Volto para o
acampamento, os meus compinchas dormem ainda, ou fingem que dormem, como muitas
vezes fazem, mas não os chateio, deixo-os dormitar vontade e vou buscar lenha
seca para a fogueira com o fim de atiçar o fogo de maneira a poder preparar
café para todos. Aqui não há horas, mas temos as nossas rotinas, somos cinco, a
contar comigo, a mim chamam-me Shima, foi o velhote meio francês, o Dumas, que
assim me começou a chamar nem sei porque, diz que sou parecido com um deus
indiano com esse nome ital, mas o velhote é louco, não sabe o que diz, quem o
fodeu foi a literatura, tem uma colecção enorme de velhos livros numas arcas e
outros empilhados contra um dos pilares da ponte onde dorme, esta sempre a
contar histórias saídas desses livros, coisas de mitologia misturadas com a sua
própria vida de mendigo, quando sai daqui do acampamento leva consigo uma resma
desses livro, vai a feiras, faz trocas e volta com outros, sempre em maior
quantidade, também colecciona bonecos de barro em miniatura, por vezes noite,
passa tempos infinitos a poli-los em frente lareira enquanto Yol, o cigano
punk de origem balcânica toca a sua velhinha harmónica roubada a um famoso
ourives, isto segundo a sua lábia. O certo é que o rapaz é enternecedor, tanto
na música como no patuá, por vezes vou com ele para a babilónia, divertimo-nos
grande a gamar em centros comerciais, um entretém o outro mete para a saca, é
como a história dos gambozinos, um enxota e o outro agarra, s tantas gastamos
tudo em drogas e vinho e ainda dá para ir s putas, eu confesso que não gosto
de pagar para foder, por isso vou para salões de jogo, mas o magano não faz a
missa a metade\u2026 Depois temos cá também o Jack, um ciclista quarentão que já deu
quase a volta ao mundo em bicicleta, diz que já esteve na china, na índia, em
Jerusalém, nas Américas, ou nas Antilhas onde fo

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